Meu Diário
19/07/2016 01h33
1966-1969 - Eu e meu acordeon

 

 

Esse foi meu primeiro acordeon, presente do querido Tio Lulu, irmão do papai - um Longhini verde, de 80 baixos. Tio Lulu era lindo! Morria de ciúmes dele!!! Era bem pequenina, quando namorou uma prima - a Elza - e um dia, da calçada (da casa da Vó Lourdes) subi até o peitoril da janela para vigiá-los... Lembro-me disso, até hoje!!!

Foto principal - 1969: Em festa junina, eu e a linda Nair. Fomos as "sanfoneiras" da festança, no Clube Elefante Branco. Nair, à época, era namorada do meu Tio José Silvio. Casaram-se e juntos estão, até hoje. Tia Nair foi minha terceira professora de acordeon. Na realidade, preparou-me para ingressar no Conservatório Musical de Lorena, onde se formara anteriormente.

Segunda foto: 1967 – Festa junina no campo do Estrela.

Terceira foto: 1966 (?) – Festa junina no Grupo Escolar Antonio João. Observem a carinha de sono... rsrsrs...

 

 


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 19/07/2016 às 01h33
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06/07/2016 01h58
Agosto de 1968 - Eu e "Piquete, Cidade Paisagem", de Mariinha Mota

Em 1968, declamando poema sob autoria da minha mãe Mariinha Mota - Evento na Praça Duque de Caxias - Piquete - São Paulo - Brasil. Lembro-me de que havia uma tocha simbólica a ser levada pelas ruas da cidade, mas papai não me deixou levá-la. A missão foi transmitida à Lígia. Observem, à frente do busto de Caxias, a pira onde a tocha permaneceu acesa. Esse evento ocorreu cerca de dois meses após o concurso de Miss Estudante Vale do Paraíba, do qual ambas participamos e arrebatamos o primeiro (Lígia) e o segundo (eu) lugares.
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Piquete, Cidade Paisagem
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Existe uma cidade linda, acolhedora,
almo ninho imortal de cálidos olores;
de edênica paisagem, tela sedutora,
domicílio gentil de rosas e de flores.

O povo bom se iguala à flâmea natureza!
Humildes operários, almas superiores,
guardam em seus corações manifesta grandeza,
vivendo para a paz e o bem imorredores.

Num recanto da amada Pátria Brasileira,
envolvendo-a lá está a Serra Mantiqueira,
parecendo, à tardinha, um manto rosicler.

É assim minha cidade bela e pequenina,
onde vivi contente os sonhos de menina
e realizei, feliz, meus sonhos de mulher.


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06/07/2016 01h28
1°-06-1968 - Concurso de Miss Estudante do Vale do Paraíba

1° de junho de 1968 (16 anos) - Sílvia Mota - Concurso Miss Estudante Vale do Paraíba.

Quando Miguel Castro, um grande amigo da família, foi até a minha casa convidar-me (para o papai, claro!) para participar do concurso, eu realizava um trabalho de biologia, com uns desenhos bonitos e nessa tarefa continuei. A visita foi muito formal e não me permitiram participar da conversa, mas mamãe corria para lá e para cá contando-me as reações do papai. Ao final, disse-me que permitira e até sugerira a cor do vestido - rosa choque - que, a partir do seu pensamento, combinaria com a cor da minha pele. Ao final, vestiram-me de dourado... Bom dizer, que papai somente permitiu minha candidatura, porque não haveria desfile de maiô - as concorrentes eram muito jovens... kkkkk

À época, meu irmãozinho Salvador Augusto emagrecera muito e começara a mancar, da perna direita, mas não sabíamos ainda a respeito do câncer. Por tal motivo, participei do concurso. Foi muito rápida a evolução da sua doença. Triste demais. Lembro-me bem...

O vestido foi confeccionado por Dna Eunice, todo em fio metálico dourado, com apliques de flores douradas em paetês e canutilhos importados. Mamãe assim o idealizou, para que no momento em que entrasse na passarela, sob as luzes dos holofotes, reluzisse como uma flor dourada! Os brincos, criados com inspiração nessas flores, luvas de cetim preto com sapatos de gorgurão na mesma cor e meias finas douradas (um luxo, para a época!) completavam o look da mocinha de Piquete, que tremia sem parar. Afinal, era o meu primeiro desfile pelas passarelas! Tudo lindo, pois Mamãe tinha muito bom gosto, nesse sentido! Mas, para contrariar os seus planos, por motivos que ninguém sabe até hoje, fui a única candidata a desfilar sem música e sem as luzes dos holofotes. Também, enquanto desfilava, não leram a síntese das minhas habilidades (ou qualidades), como ocorreu com as demais candidatas.

Vivíamos a era dos transplantes de órgãos e, no momento das entrevistas com as candidatas, a Miss Estudante de Guaratinguetá foi perguntada a respeito do primeiro transplante de coração realizado no Brasil pelo Dr. Zerbini, em 25 de maio de 1968. A mim, perguntaram sobre minha experiência com os esportes, o que aborreceu muito meus pais, pois ainda que muito jovem, reunia talento para questionamentos mais elaborados.

Fiquei em segundo lugar.

Meu pai, inconformado, retirou-me do baile, como se fosse a Gata Borralheira, mas não antes de pedir ao Tio Carlinhos, que dançasse comigo, mais uma vez. Meu tio exibiu-me o mais que pode, principalmente, frente à mesa dos jurados.

Dias depois, encontrei-me com papai, na Praça da Bandeira, dizendo aos seus amigos aposentados, que nunca mais sua filha participaria de concursos de beleza:

- As ruas de Piquete, daqui para a frente, serão a sua passarela.

E, assim foi.

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Observação interessante:

Piquetenses participantes do concurso: Sílvia Mota, Lígia e Sidneia Pereira.

À época, existia uma frase de caminhão a passeio pelas estradas de São Paulo: "Se moça bonita fosse flor, Piquete seria um jardim"... rsrsrs...

As Misses vencedoras:

Sílvia Mota (Segundo Lugar, vestida de dourado) e Lígia (Primeiro Lugar, de azul), ambas de Piquete. A candidata que ficou em Terceiro Lugar (à direita, também de azul), era de Guaratinguetá.


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06/07/2016 01h15
12-05-1968 - Eu e "A Escrava do Senhor", de Mariinha Mota

12 de maio de 1968 - Comemoração do Dia das Mães - Entrando no palco para declamar o poema "A escrava do senhor", autoria da minha mãe Mariinha Mota. — em Clube Elefante Branco - Piquete - São Paulo - Brasil.

1968 - Aos 16 anos (marcação da foto), no Dia das Mães - Ajoelhada, ao final da interpretação do poema "A escrava do Senhor", da autoria de Mariinha Mota - minha querida Mamãe. — em Clube Elefante Branco - Piquete - São Paulo - Brasil.

Declamei este poema num Concurso Arnolfo Azevedo. Foi escrito para que eu o declamasse. Depois, interpretei-o em Piquete, numa festa do Dia das Mães (foto abaixo). Observação: Com os poemas da mamãe, sempre arrebatei os primeiros lugares. Houve um concurso, no qual mamãe arrebatou 8 medalhas, entre essas, com o poema "Tudo passa", ganhou a medalha de ouro e com "Joana de Cusa" (o poema perdeu-se), a medalha de prata. Como intérpretes, ganhei o primeiro lugar, com "Joana de Cusa", e, Tio Carlinhos, o segundo lugar, com "Tudo passa". Invertemos as posições... rsrsrs... Dois poemas da mamãe empataram no terceiro lugar. Foi um show!!! Chamavam por Mariinha Mota e entregavam-lhe o prêmio. Mamãe voltava para a plateia, sob aplausos retumbantes... e era chamada novamente. Foi assim, até receber as 8 medalhas. Arrebatou TUDO!!! O concurso foi dela, somente! Consagração total! Nunca vi coisa mais linda! Papai só faltou explodir de orgulho! Lindo, lindo, lindo!!! Todos os declamadores dos seus poemas eram filhos de Piquete. Se não me engano, meu irmão Miguel Mota também participou desse concurso. Era menino, ainda.

Eis o poema referente à foto:

A ESCRAVA DO SENHOR

Quando João, o discípulo amado, anunciou
à Maria a prisão do Mestre, ela rogou
ao Senhor dos Senhores, toda em aflição,
que lhe poupasse o filho de seu coração.
Não era o seu Jesus, Divino Embaixador?
Não lhe anunciara o Anjo, com celeste ardor,
que ilustraria Ele o nome de seu povo
incutindo nas mentes sentimento novo?
Seria um nobre Rei, diferente, amoroso,
dando visão ao cego, curando o leproso.
À sepultura, Lázaro Ele arrancara em glória,
e a vida então lhe dera, em madrugada flórea...
Seu nome era lembrado em glorificação.
Todos lhe decantavam a predestinação.
E Maria confiou, ao Todo Poderoso,
preocupação e súplica em pranto copioso...

Veio dizer-lhe, entretanto, o discípulo João,
que o Messias já fora encarcerado então.
E Maria voltou com fervor à oração.
Implorou novamente o favor celestial.
Confiaria no Pai com fervor sem igual.
Desejava enfrentar, desassombradamente,
a situação. Até já lhe passara na mente,
procurar por alguém, alguma autoridade,
mas era muito frágil e cheia de humildade.
Certamente que Deus, de bondade infinita,
salvaria Seu Filho, para sua dita.

Mantinha-se Maria sempre vigilante.
Afastou-se de casa e ganhou, ofegante,
a rua, e da prisão ela se aproximou.
Muitas vezes, aos guardas, triste, ela implorou
o favor de um instante no cárcere entrar;
ver seu filho Jesus e um beijo lá lhe dar.
A noite já ia alta e ela ali ficava.
Entre a angústia e a confiança, a Virgem em dor velava...

Mais tarde, João voltou, contando-lhe em seguida,
que a causa de Jesus já se achava perdida,
pois pelos sacerdotes fora ele acusado.
O terrível Pilatos tinha até hesitado,
enviando o Bom Rabi ao Herodes infame,
sem que o povo judeu por justiça pedisse.
Maria, resoluta, abrigou-se num manto,
e saiu a orar, os olhos sempre em pranto.

Que terrível aflição a dessa Mãe Sublime!
Coração sofredor que em lágrimas se exprime!
Que fizera Seu Filho, para vir sofrer
as injúrias e o opróbrio, sem os merecer?
Mas, oh! Que sofrimento! Que horror! Que agonia!
Seu Jesus já envergava o fato de ironia,
tendo às mãos uma cana e à cabeça a coroa,
trabalhada em espinhos donde o sangue escoava...
Ela quis libertar-lhe a fronte dolorosa,
mas o Filho, sereno, enviou-lhe amorosa
resposta em Seu olhar, tão bom, resignado.
E Maria seguiu seu Filho idolatrado...

Relembrou nesse instante, a infância de Jesus,
aquela linda estrela que lançava a flux,
o sinal deslumbrante do Seu nascimento.
Registrado em seu íntimo ficara o evento.
A multidão parou... Num esforço supremo,
Pôncio Pilatos, juiz, usa um recurso extremo:
Convida a decidir a turba então loquaz,
entre Jesus divino e o torpe Barrabás.
E Maria sentiu a esmagadora afronta.
Em doloroso pranto viu-O tomar a cruz
e vergando sob ela o corpo de Jesus.
O Rabi caminhava, o dorso vergastado,
com furor sem igual, por um infeliz soldado.
Angustiada, lembrou-se, repentinamente,
do Patriarca Abraão que levara o inocente
Isaac até o altar do sacrifício, e então,
Jeová lhe falara em glorificação.
Certamente que Deus lhe escutaria a prece,
e na hora extrema um Anjo interviria.

No entanto, a Mãe Sublime, dolorosamente,
viu, entre dois ladrões, no madeiro inclemente,
Seu Filho ser pregado. Triste felonia!
O Pai não lhe escutara a prece da agonia...
Em grande desalento ouviu a voz do Filho,
recomendando a João o seu perene auxílio.
Registrou humilhada, o Verbo derradeiro...
Mas, quando já pendia inerte no madeiro
a cabeça sublime, força misteriosa
apossou-se da Virgem e ela ouviu, ditosa,
a saudação celeste, sublime e grandiosa.
Jesus era Seu Filho amado com fervor,
mas era o Mensageiro do Grande Senhor.
Compreendeu que possuía sonhos materiais.
Submissa, curvou-se às forças celestiais,
trazendo, ainda, lágrimas no olhar tristonho.
A Virgem reviveu sua vida qual num sonho.
Compreendeu afinal, a Justiça, a Vontade
do Pai sempre amoroso e cheio de Bondade.
Ajoelhando-se aos pés da cruz e do suplício,
Maria repetiu sem dor nem sacrifício:
“Eis aqui, meu Senhor, a Sua Humilde Escrava.
Cumpra-se sempre em mim, segundo a Sua Palavra!”

"Eu também, a exemplo de Maria, guardei minhas esperanças até o fim. Quando cheguei à conclusão de que nada mais poderia fazer pelo meu filhinho, curvei-me à Vontade do Todo Poderoso.
Restam-me, agora, as lágrimas de saudades que não sei reprimir porque, infelizmente, estou muito aquém da grandeza espiritual
Daquela que foi a Mãe de Nosso Salvador.

Mariinha Mota"

O emocionante comentário aqui exposto, foi grafado, por minha Mãe, ao final do poema, também escrito à mão.


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 06/07/2016 às 01h15
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06/07/2016 01h10
12-11-1967 - Eu e "A Caridade e a Justiça", de Guerra Junqueiro

E a "faxina" pelos papeis acumulados, revela-me outras surpresas.

Esse diploma é do mesmo ano, três meses depois - 12 de novembro de 1967. E, continuamos no drama. Poema de difícil interpretação! Depois desse poema, somente declamei poemas da minha mãe Mariinha Mota.
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A CARIDADE E A JUSTIÇA
Guerra Junqueiro
***************************
No topo do Calvário, erguia-se uma cruz,
E pregado sobre ela o corpo de Jesus.
Noite sinistra e má, nuvens esverdeadas
corriam pelo céu como grande manada de búfalos,
E a lua ensanguentada e fria,
Triste como um solução imenso de Maria
lançava sobre a paz das coisas naturais
a merencória luz, cheia de brancos ais.
Um silêncio pesado amortalhava o mundo
Unicamente ao longe o velho mar profundo
Decantava, chorando os salmos da agonia
E, Jesus, cheio de dor, quase a expirar, sorria.
Os abutres cruéis, pairavam lentamente
A farejar-lhe o corpo às vezes de repente,
uma nuvem toldava a face do luar,
um clarão de gangrena, estranho e singular,
lançava sobre a cruz, uns tons esverdeados
crocitavam ao longe, os corvos esfaimados
Mas passado um instante, a lua branca e pura,
Irrompia, outra vez , da grande névoa escura
]e, inundavam-se, assim, as chagas de Jesus
nas pulverizações balsâmicas da luz.
No momento em que havia grande escuridão,
Cristo viu alguém aproximar-se e então
olhou e viu surgir do horror das trevas mudas,
o covarde perfil sacrílego de Judas.
O traidor, contemplando o olhar do Nazareno
Tão cheio de desdém, tão sublime, tão sereno,
convulso de terror, fugiu.
Surgiu-lhe, neste instante,
frente a frente, um vulto de gigante,
que bradou: traidor é chegado o teu castigo,
o traidor teve medo e balbuciou, amigo:
Quem és tu, que queres tu de mim, por quem esperas
O remorso, um caçador de feras,
Eu ando há mais de seis mil anos,
a caçar pelo mundo, as almas dos tiranos
Do traidor, do vil, do celerado
e quando as prender, tenho-as encarcerado
na enormíssima jaula atroz a expiação
e quando entro na imensa confusão
de tigres, de leões, de abutres, de chacais,
de rugidos febris e de gritos bestiais
fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto
Caim baixa a pupila e vai deitar-se a um canto.
E, quando enfim, alguns dos monstros quer lutar,
Azorrago-o com a luz febril do meu olhar,
Dando-lhe um pontapé como num cão mendigo
Judas, já sabes quem sou, andas comigo.
Como um preso que quer comprar um carcereiro,
Judas tira do manto a bolsa do dinheiro
Dizendo: aqui tens, deixa-me partir
O gigante fitou-o e começou a rir.
Houve um grande silêncio, o infame Iscariote,
Como um negro que vê a ponte de um chicote
Tremeu!
Finalmente, o vulto respondeu:
Judas, podes ficar, esse dinheiro é teu,
O ouro da traição, pertence ao traidor,
Como o riso à inocência e como o aroma à flor,
Este ouro será para ti o eterno pesadelo,
Guarda-o, guarda-o bem que quero derretê-lo
E, lançar-to, depois, cáustico, vivo, ardente,
Lançar-to gota a gota, inexoravelmente.
Em cima da consciência, a pútrida, a execrável
Com ele hei de fundir a algema inquebrantável
A grilheta que a tua esquálida memória, trará,
arrastará pelas galés da história
Durante a eternidade, ilimitada e calma
Esta bolsa que aí tens, será o cancro de tua alma,
Já se agarrou a ti, ligou-se ao criminoso,
como a lepra nojenta ao corpo do leproso
como o imã ao ferro e o verme à podridão,
não conseguirás jamais lançá-la da tua mão.
És traidor, hipócrita, assassino, perjuro
Tua alma lançada em cima de um monturo
É o que há de mais vil,
Desde o ventre do sapo, à barba do réptil.
Sai da existência, diz à sombra que te açoite,
Verme procura a paz, monstro procura a noite.
Que sol não veja mais um único momento,
O teu olhar oblíquo e o teu perfil nojento.
Esse crime, bandido, é um crime que profana
Todas as grandes leis da consciência humana,
todas as grandes leis da vida universal.
Esconde-te na morte como um chacal.
Adeus! Causas-me nojo e asco,
Deixe dentro de ti Judas,
O teu carrasco.
Adeus, já brilha o astro matutino
E eu, caçador feroz cumprindo o meu destino,
Continuarei a caçar os javalis nos matos
E dito isto, partiu a procurar Pilatos.
Vinha rompendo ao longe a fresca madrugada,
Judas ficando só, meteu-se pela estrada,
Caminhando ligeiro, impávido e terrível,
Comum um homem que leva um fim imprescritível.
De repente estacou, uma ideia qualquer heroica e sobranceira,
Havia uma figueira
Projetando na estrada a larga sombra escura,
Judas desenrolando a corda da cintura,
Subi, atou-a a um ramo vigoroso,
Neste instante o seu olhar odioso,
Tinha um brilha adamantino,
Reto como um juiz e forte como um destino.
Neste instante ecoou através do negro céu profundo,
A voz celestial de Jesus moribundo
Que lhe disse: traidor, concedo-te o perdão,
Além de meu carrasco, és ainda meu irmão
Pregaste-me na Cruz, és o mesmo, fica em paz,
Eu costumo esquecer o mal que alguém me faz.
Esses golpes cruéis, essas horríveis dores
As chagas para mim são outras tantas flores,
Não te cause espanto o meu atroz suplício,
Eu tenho como bem vês até prazer no sacrifício.
Judas contemplou ao longe, o cerro do Calvário
E erguendo-se viril, soberbo e extraordinário
Exclamou: não aceito a tua compaixão,
A justiça dos bons, consiste no perdão,
Um justo não perdoa, a justiça é implacável,
A minha ação é infame e miserável.
Vendi-te aos fariseus
Pois bem sendo eu um monstro e tu um Deus,
Vais ver como este monstro o pobre Cristo nu,
É mais forte do que Deus
E mais justo do que tu
À tua Justiça humanitária e doce,
Eu prefiro o dever terrível,
E enforcou-se!


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 06/07/2016 às 01h10
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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr