Meu Diário
06/07/2016 01h06
23-09-1967 - Eu e "Felicidade é coisa que não tem", de Judas Isgorogota

Assim que me tornei adolescente, meu corpo desenvolveu-se rapidamente. Então, nos concursos de declamação, era sempre inscrita numa série acima da minha, porque não combinava com minha altura e desenvolvimento físico, participar das séries mais jovens. Resultado - concorria com minha irmã e, dessa forma, nem sonhava com o primeiro lugar, porque Auxiliadora Vieira sempre foi um fenômeno na arte da declamação! Um espetáculo indizível! Quem a assistiu em "A morte da águia", de Luís Guimarães Júnior ou em "Vozes d'Africa", de Castro Alves, confirmará o que estou a dizer. Mas, um dia... mamãe Mariinha Mota apresentou-me ao poema "Felicidade é coisa que não tem", de Judas Isgorogota. Pronto! Veio à tona o meu dom para interpretar dramas (e de lá para cá, permaneço dramática... rsrsrs...). Com esse poema, a minha ÚNICA CHANCE de alcançar um primeiro lugar!!! Ufa! Estou um pouco em dúvida, se concorri com minha irmã, nesse certame... rsrsrs... Digo isso, pela data - 23 de setembro de 1967, quando Zizi (nós a chamamos assim) estava em São Paulo, cursando um pré-vestibular para Medicina.
Segue o belo poema, com o qual fiz muita gente chorar, em particular o Diretor do Colégio Estadual Guimarães Rosa, à época Prof. Roberto Riccio. Sua filhinha era doente e ele não conseguiu segurar as lágrimas, quando interpretei esse poema no Colégio, certa vez. Disso, nunca me esqueci e não me esquecerei...
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Felicidade é coisa que não tem
Judas Isgorogota
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Era órfã e infeliz. Tinha o pesar profundo
De ser só, de não ter, como as outras meninas,
O carinho, a atenção, o desvelo dos pais.
Sofria por saber que, sozinha no mundo,
Ela, que havia tido a mais negra das sinas,
Deste mundo de dor nada esperava mais…
Mas, ouvindo, por fim, a fervorosa prece
Que altas horas da noite entre prantos brotava
Daquele ingênuo coração,
O Senhor a atendeu. E eis que um dia aparece
Um casal que de há muito desejava
Uma menina assim, para sua afeição.
E ela foi a sorrir, ela que não sorria…
A mansão do casal era toda cercada
De um mimoso jardim.
Seus vestidos agora eram lindos. Dir-se-ia
Que a andrajosa infeliz se transmudara em fada
E que a sua desdita, enfim, tivera um fim…
Não tivera, porém. Há três anos
Que ela era na escola a estudante pior.
Entanto, ela fazia esforços sobre-humanos
Para ao menos dizer uma frase de cor…
A memória, porém, só lhe causava danos
E era aquilo, afinal, sua mágoa maior…
Uma noite, o casal lhe disse: "Temos pena
De lembrar que você já não é tão pequena,
Que precisa estudar…
Pois, se perder este ano, é coisa resolvida,
Você vai passar a sua vida
Na copa, a trabalhar."
Aquela repreensão como um punhal lhe doía.
Tendo a alma a afogar-se em pranto, noite e dia
Aos livros a sem-sorte inda mais se aplicou.
Não, não queria ser uma simples copeira,
Ela que, pobrezinha, a sua infância inteira
Entre angústias passou…
Dezembro. A criançada. Antegozando as férias,
Mui longe de pensar nessas coisas tão sérias
Que a vida nos impõe quando a idade já vem,
Corre aos exames, rindo a criançada…
E no meio daquela revoada
Com um riso triste e bom, a órfão sorri também…
A escola é nesse dia um ninho delicioso,
Forrado de jasmins, de palmas e florões.
E a voz do mestre é a voz de um Todo-poderoso
Que as almas infantis enche de comoções…
Chega a vez da orfãzinha. É agora a vez terceira
Que se senta naquela humílima cadeira
Tal como se sentasse em um banco de réu…
Fala o mestre o seu nome, ao que ela diz: "Presente!"
Mas, o corpo era só que estava ali…realmente,
A sua alma vagava, entre os anjos, no céu…
O mestre a conhecia: era uma retardada
Mental, um caso à parte, e mister se fazia
Que com amor procedesse à mais leve arguição.
Dentre todas talvez fosse a mais aplicada…
Mas a ideia faltava…o cérebro dormia…
E a memória vivia em profunda inação.
-"Minha filha, você sabe perfeitamente
O que é "substantivo": a palavra que indica
Um animal, um ente,
Uma coisa ou pessoa, ou mesmo uma ilusão…
Por exemplo, você, o seu nome, "Lilica";
"Palácio", "Deus", "Amor", "Jornal", "Antônio"…
"Demônio" é um ser também, muito embora "Demônio"
Somente exista na imaginação…"
-"Muito bem, - prosseguiu o mestre. Estou contente.
Agora, diga o que é "substantivo abstrato"…
Diga…Lembre-se bem…coisa mais fácil não há…
Substantivo abstrato…uma coisa em que a gente
Ouve sempre falar mas não viu, de fato,
Nunca viu nem verá…"
-"Vamos… Só um exemplo, e eu fico satisfeito…
Substantivo abstrato…um entre sobre-humano,
Um ser a cujo canto alma alguma resiste,
Mas que não passa de ilusão…
Um sentimento bom que vive em nosso peito…
Uma coisa que o mundo inteiro diz que existe
E entretanto jamais a tivemos à mão…"
Nesse instante, uma luz brilhou nos olhos pequeninos
Da orfãzinha infeliz; e eis que, rasgando o denso
Nevoeiro, a ideia acorda em lampejos divinos,
A memória reluz como uma estranha vela;
Inicia a razão sua marcha triunfal,
E o cérebro, por fim, despertando daquela
Sonolência fatal,
Começa a funcionar com um dínamo imenso!
-"Mestre…mestre…eu já sei!" – grita a coitada como
Temendo que a razão se apagasse outra vez.
E aos brados, a chorar, num doloroso assomo,
Grita como uma douda
Que quisesse dizer a sua angústia toda
Naquele instante só de estranha lucidez!
- "Mestre, eu sei o que é! Se há uma coisa, em verdade,
Que o mundo inteiro diz que existe e que ninguém
Conseguiu ver jamais, nem a sentiu também,
Essa coisa só pode ser "Felicidade"!
Felicidade é coisa que não tem"


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 06/07/2016 às 01h06
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06/07/2016 01h00
13-11-1966 - Eu e "O Livro e a América", de Castro Alves

Encontrei mais um PRIMEIRO LUGAR, por aqui! - 13 de novembro de 1966.

Arrebatei o prêmio com "O Livro e a América", de Castro Alves. Nesse concurso, em outra faixa de idade, minha irmã Auxiliadora Vieira declamou "Vozes D'Africa" e mamãe Mariinha Mota participou na faixa adulto, sendo classificada em segundo lugar, embora aplaudida de pé por todos os presentes, com "Tragédia no Lar", também de Castro Alves. Mas, a vergonhosa injustiça, não é matéria para ser discutida aqui, nesse momento.

Segue o poema que declamei:

************************************
O LIVRO E A AMÉRICA
Castro Alves
************************************
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos... co'os
firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar!... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteon?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo...
— Com as garras nas mãos do mundo,

— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

Vós, que o templo das ideias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhado
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 06/07/2016 às 01h00
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03/07/2016 03h18
1960 - Infância - Concurso da "Princesinha Escolar"

Piquete - São Paulo - 12 de outubro de 1960 (estava com 8 aninhos, quase 9).

Encontrei por aqui e achei uma gracinha! Eram várias princesinhas, mas somente uma venceu o concurso - Beatriz Marun - por maior número de votos "vendidos".

Recebíamos um talão com determinada quantidade de votos e, à medida que acabavam, recebíamos outro. A festa para entrega dos diplomas foi na Associação Comercial de Piquete, na Praça da Bandeira. Minha memória é terrrríííível, mas lembro-me bem do evento.

Documento oferecido por Beatriz Marun, no Facebook,

quando publiquei meu diploma.

 


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 03/07/2016 às 03h18
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03/07/2016 02h42
14-12-1959 - Grupo Escolar Antonio João

Mais um documento que encontrei por aqui...

14 de dezembro de 1959 - aos 8 aninhos inaugurados no dia 2 de dezembro de 1959 - Grupo Escolar Antonio João - Piquete - São Paulo - Brasil. Cartão de promoção para o terceiro ano primário... Que belezinha!


Publicado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 03/07/2016 às 02h42
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03/07/2016 02h03
Década de 50 - Foto da infância - Fragmentos do passado

Sou menina e moça dos dias de outrora, que agora sonho e enxugo lágrima verde, que embaça olhos de pureza... e outra... e outra mais...

Laços de fita engomados emolduram de branco minhas negras tranças e bonecas alegres sentam-se ao meu lado nos bancos escolares. À sala escura do cinema sou Jane do Tarzan e dedos saltitantes campeiam garbosos pelos teclados e botões de um verde acordeon. Ao palco da adolescência, sou Miss Estudante, sob olhos dos meninos medrosos do meu pai, que me surrupia da festa qual Gata Borralheira. Chão de paralelepípedo estremece patriota por onde desfilo altiva - coração aceso em chama - e exibo ao passo certo, a Bandeira do Brasil.

Sou menina e moça dos dias de outrora, que agora sonho e enxugo lágrima verde, que embaça os olhos de pureza... e outra... e outra mais...

Texto escrito em:
Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2010 - 2h53
Fotografias: Eu, Luíza e meus três irmãos.
Da esquerda para a direita: Miguel Mota, Luíza, Geraldo Mota, Auxiliadora Vieira e Sílvia Mota


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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr