Textos


Um aluno muito inteligente


Noite de luar bonita. Sozinha em casa, Líria estudava ao lado do computador ligado, quando ouviu o tilintar de uma mensagem entrando na caixa do Incredmail. Que bom! Era Alexandro, aluno muito querido. Iniciou a leitura. Após os primeiros parágrafos, nos quais expressava o quanto estudara na noite anterior, para uma avaliação na Faculdade, contou-lhe o discípulo:

- Em seguida assisti a um filme em DVD, "Escritores da Liberdade" (Freedom Writers, 2007), história real por trás da *Freedom Writers Foundation*, onde estudantes na adversidade mostram ao mundo do que são feitos, numa prova da capacidade humana. Lembrei de você desde o início do filme: embora os cenários sejam diferentes (talvez opostos), o elemento é o mesmo, a velha tecla do professor (inexplicavelmente raro) que preza o crescimento interior. Se não viu o filme, avise que eu lhe levo uma cópia na quarta-feira.

Quanta gentileza! Um cavalheiro o menino!

Com o decorrer da leitura, sua expressão modificou-se. O sorriso natural entristecia a cada linha. Ao final, quedou-se triste a olhar para além da janela, com o pensamento distante.

Dias antes Alexandro confessara-lhe sua desilusão com a preguiça mental que alguns dos seus colegas preferia alimentar. Líria observava-o com respeito e preocupação. Por ser um aluno inteligentíssimo, estudioso e inquieto, despertava olhares e risinhos de escárnio quando realizava perguntas aos seus professores, em sala de aula ou em outras atividades. Após pedir licença à professora, correspondia-se num pedido de socorro.

Suas palavras traziam mais angústia do que revolta:

- Meu dilema é este: tento respeitar o histórico e os motivos de cada um, mas basta lembrar *a atitude* deles, do mais absoluto descaso pelo raciocínio, que começo a me incomodar, num crescendo que me inflama e faz passar da casualidade a cismadas lucubrações que não chegam a lugar algum acerca dos motivos, do que leva uma pessoa a *voluntariamente* se alienar. Aliás, se eu sequer consigo frear meu pensamento, uma torrente permanente e intensa que por vezes me exaure, para mim é do mais absoluto mistério o estofo, o fermento, o germe das razões deles...

Com os olhos presos à telinha e uma dorzinha ligeira do lado esquerdo do peito, Líria lia e relia a aflita mensagem do querido aluno. Mais de uma hora depois decidiu-se por responder, até mesmo porque Alexandro, durante a missiva confessava-lhe seu desânimo perante a situação e que estava prestes a desistir do curso. Urgia intervir. Precisava oferecer-lhe o apoio de mão amiga, mesmo que o fizesse virtualmente, naquele momento. Mas, não poderia "fingir que não via ou sentia" o problema. Alexandro, inteligente demais, não merecia a farsa e Líria, honesta demais, jamais a cometeria! Cabia estimulá-lo a enxergar coisas boas dentro das circunstâncias desfavoráveis duramente expostas.

E foi assim, com este sentimento, que escreveu sua resposta.

"7 de outubro de 2007.
Querido Alexandro,


Cada vez mais desfaço-me em encanto frente à beleza e à perfeição da sua escrita. Simplesmente, no topo da idade alcançada, gostaria de dizer-lhe que nunca encontrei, nos bancos das faculdades nas quais ministrei minhas aulas, um aluno tão culto e tão sensível à realidade. Por tal motivo, meu coração jamais se negaria a enviar-lhe uma resposta.

Em primeiro lugar saiba que, na saga das perseguições intelectuais, você não se encontra sozinho. Padeci e ainda padeço problemas iguais aos que você relata. A diferença entre nós é que nunca pensei em desistir. Tenho um ideal. Não posso perdê-lo a erros tão grosseiros.

Por vezes, na minha vida, incomodava-me o descaso do ser humano consigo mesmo. Observava sua opção por vidas obtusas, se é que isso pode ser chamado de vida... Incoerência. A própria palavra se enovela na renovação constante - Vida. Quantas vezes sofri. Separei-me de pessoas que amava, tudo para crescer. Por outras fui abandonada, talvez porque meu cotidiano não fosse besta, hipócrita, mas repleto de indagações e necessidade de respostas. Dos poucos amores aos diversos amigos e alunos que cruzaram meu caminho, levei diversos à exaustão. Mas, se por desejar constantes desafios as cansei, não conseguiria mesmo tê-las ao meu lado por muito tempo. Sou mulher guerreira, que, para além do mero combate, luta pela vitória. A inércia sufoca-me.

Como professora, descobri uma realidade nova: pessoas que se orgulhavam de nada saber e de nada ler. Com o tempo, surpresa, percebi que pessoas assim proliferam. Propagam sua ignorância aos quatro ventos, sem vergonha nenhuma. Afinal, é preciso compreendê-las, porque algumas não possuem dinheiro para comprar livros ou para andar de ônibus. Por outro lado, certa feita encontrei uma aluna que reclamava do fato do marido ser um empresário muito rico: "Minha vida é muito difícil, professora. Quando o motorista falta tenho eu mesma que levar meus filhos ao judô, à natação, ao curso de inglês e à aula de dança..." É assim: as dificuldades tornam-se insuperáveis e as vantagens, desgraças. Não consigo compreender...

Lutei e luto muito contra essa inércia. Busco chamar meus alunos para o mundo da cultura e do saber, mas, diante da excessiva reclamação de alguns, acabo prejudicada por coordenadores que "não estão a fim" de resolver problemas dessa natureza, sendo mais fácil pedir-me para ser mais suave e mais compreensiva... Claro, nas entrelinhas destes "conselhos", subjaz implícita a "ordem" de que devo ser menos provocativa e passar o mínimo, para quem paga o elevado preço exigido. Sendo assim, como escrevi no texto exposto na prova: surge um novo tipo de consumidor, estranho, por sinal, que paga o máximo para receber o mínimo em troca.

Os alunos que me admiram, por sua vez, acham melhor aderir ao silêncio, para não sofrerem represálias por parte dos demais colegas. Para mim, igualam-se aos demais. Não entendo e não aceito a omissão.

Continuo, após tantos anos de labor, a mesma profissional apaixonada ou, talvez, um pouquinho mais, porque ostento hoje mais conteúdo e mais experiência. Devo dizer-lhe que sofro menos. Resolvi que cumprirei o meu show da melhor forma possível. Nos meus momentos em sala de aula, minhas palavras são ignoradas por muitos, mas sou ouvida por alguns. Em qualquer plantação é assim... Nem tudo vinga, infelizmente. Contudo, jamais desisto de plantar e tenho certeza de que a minha dignidade profissional jamais será esquecida, tanto pelos maus quanto pelos bons alunos, porque em meus momentos de espalhar as sementes respeito os diferentes terrenos.

Alexandro, é preciso que você olhe para dentro de si mesmo e procure seu ponto de equilíbrio em relação às demais pessoas, mesmo que, na maioria das vezes, estejam em sintonia diferente. Não se esqueça de que na dissonância encontram-se os mais lindos e determinantes acordes. Depois, é continuar a ser o que você é. A repulsa que despertamos em algumas pessoas é proveniente do medo que lhes provocamos por não serem ao menos parecidos conosco... Mas, se, aparentemente, não nos podem causar mal, é melhor permanecermos de prontidão, porque se nos afastarmos dos nossos ideais, em razão dos seus comentários maldosos, é porque, independente da nossa elevação intelectual, foram mais fortes do que nós... Por tal razão: NUNCA DESISTA DOS SEUS IDEAIS.

Não obstante, acredito na revolução humana de cada um. Espero que a maior parte vença suas pérfidas idiossincrasias. Além do mais, saber viver na diferença faz crescer. E, como não vivemos sozinhos, ponho-me por aqui a pensar na Flor de Lótus, a nascer e a florescer branca e pura, a partir do mais impuro e fétido pântano.

Quer exemplo mais natural?

Feliz por você retomar o blog. Escrever poemas faz bem. Alivia o coração e floresce a alma. Aproveite, estamos na primavera.

Escreva-me, sempre que desejar.

As provas ainda não foram corrigidas.
(Ops... Esqueci-me de avisar-lhe: minha tecla do ponto de exclamação não está funcionando rs rs rs)

Beijos,
Professora Líria."


Esta a resposta de Líria para seu aluno. Outras correspondências trocaram. Alexandro prosseguiu o curso. A professora foi demitida dois anos depois, mas este fato não se relaciona à carta enviada para Alexandro, que serve apenas para ilustrar as injustiças cometidas contra professores cuja seriedade é admirada e respeitada pelos bons alunos, hoje escassos. Motivos insinuados para a demissão de Líria: sua rigorosidade (os alunos medíocres assinalados por Alexandro venceram?) e o fato de que se tornara uma professora cara para a Instituição, que naquele momento optava por contratar professores recém formados ou com certificados de Especialistas. Ignorados, portanto, a dedicação, os diplomas e a experiência ostentados. O esplendor do seu Curriculum Vitae et Studiorum servira somente enquanto os cursos encontravam-se em fase de reconhecimento pelo MEC, que valoriza a contratação, pelas universidades, de Mestres e Doutores dedicados essencialmente à pesquisa. Também... e o curioso nesta trama é que Líria jamais se sujeitou a elogiar de forma exacerbada e falsa seus "superiores" ou aceitou participar de jantares ou encontros coletivos após os horários de aula ou aos finais de semana. Para além disto, ninguém conseguiria apontar-lhe uma falha sequer na conduta pessoal extremamente rigorosa, no que diz respeito a negar-se a envolvimentos amorosos com os colegas de trabalho. Bom lembrar que Líria não é mulher feia ou desajeitada, ou muito menos sexualmente frígida.

Cabe lembrar que Líria nunca mais encontrou em sala de aula um aluno tão inteligente, atencioso e educado quanto Alexandro. Para bom entendedor, a saga continua...




Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2010.
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 13/01/2011
Alterado em 15/11/2011
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