Há tanta confusão no mundo social que a realidade parece, por vezes, resvalar para o irracional. Decidi, então, conceder uma trégua à minha sanidade. Não mais oferecerei palco, nas redes sociais ou no ambiente de trabalho, aos bozolóides que fazem da intolerância uma seita e da ignorância uma bandeira.
Há um paradoxo nessa contenda: na ânsia de combater o MAL, acabamos, por vezes, conferindo-lhe a visibilidade de que necessita para prosperar. Afinal, não há espetáculo sem plateia, nem circo que sobreviva quando o público se retira.
A DEMOCRACIA venceu. Isso importa. A vida, entretanto, não se resume às disputas políticas, tampouco merece ser consumida em embates estéreis. É tempo de seguir adiante, preservar os afetos e cultivar aquilo que realmente engrandece a existência.
Não confundam minha decisão com silêncio ou capitulação. Minha voz permanecerá nas páginas dos meus textos científicos, nas reflexões sobre a realidade social e na expressão poética. Continuarei a questionar, denunciar e combater, pela palavra, tudo aquilo que afronta a dignidade humana.
Meus pensamentos não serão lançados ao léu, entregues à dispersão dos ventos ou desperdiçados em ouvidos impermeáveis à razão. Minhas palavras terão propósito, endereço e sentido. Não escreverei para alimentar o tumulto, mas para semear reflexões, despertar consciências e contribuir para a transformação da realidade.
Não preciso frequentar os covis do ódio para confrontá-lo. Minhas ideias não necessitam transitar por ambientes contaminados pela mediocridade para alcançar aqueles que ainda prezam a lucidez.
Não farei ouvido mouco aos desmandos da realidade. Apenas retirarei minha voz dos espaços que frequento, presenciais ou virtuais, quando o ódio faz algazarra e a razão se torna refém do espetáculo.
Há batalhas que não se vencem pelo confronto, mas pela recusa em alimentar aquilo que pretendemos superar.
Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2026 — 13h45.