Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

O conceito de Língua Transracional (Zaum) no cubo-futurismo russo e na poética de Vladímir Maiakóvski

Introdução

O presente ensaio analisa o conceito de língua transracional (em russo, zaum ou zaúmniki), formulado no âmbito da vanguarda cubo-futurista russa nas primeiras décadas do século XX. O texto aborda a ruptura teórica promovida por poetas como Velimir Khlébnikov e Aleksei Krutchônikh em relação ao figurativismo e ao misticismo simbolista, consolidando a noção da "palavra autovalente". Em seguida, examina-se como Vladímir Maiakóvski se apropriou e redefiniu os procedimentos da linguagem transracional, integrando a pesquisa sonora e metonímica ao ritmo urbano, à oratória de praça pública e ao engajamento revolucionário.

1 O surgimento da Língua Transracional no Cubo-Futurismo

Nas primeiras décadas do século XX, o cenário artístico russo foi marcado por uma profunda ebulição estética que visava romper com a tradição cultural e com a mimese figurativa (BOLOGNESI, 1999). No campo das artes plásticas, o Suprematismo de Kasimir Malévitch instaurou a abstração pura e a não-objetividade (BOLOGNESI, 1999). Simultaneamente, na literatura, o grupo Cubo-Futurista — integrado por figuras como Velimir Khlébnikov, Aleksei Krutchônikh, David Burliuk, Vassíli Kamenski e Vladímir Maiakóvski — lançou as bases para uma revolução verbal (BOLOGNESI, 1999; COMBES, 2008; GÚZEVA, 2023)

Com a publicação do manifesto “A bofetada no gosto público” (1912) e de tratados teóricos subsequentes, os cubo-futuristas proclamaram a necessidade de renovar o vocabulário poético por meio de palavras derivadas e arbitrárias, recusando a submissão da poesia à sintaxe tradicional e à métrica tradicionais (COMBES, 2008; GÚZEVA, 2023). É nesse contexto de experimentação radical que emerge a língua transracional — geralmente designada pelo termo zaum, derivado do prefixo za — além/fora — e um — mente/razão (BOLOGNESI, 1999; COMBES, 2008).

2 A "palavra autovalente" e o Programa Social da Zaum

A língua transracional opôs-se frontalmente à poética do Simbolismo. Enquanto os simbolistas buscavam no texto uma evocação mística ou etérea da alma, a poesia transmental fundamentou-se no materialismo da linguagem, tratando o som, o ritmo e o valor fonético como elementos autônomos (BOLOGNESI, 1999; COMBES, 2008). Formulou-se, assim, a concepção da "palavra autovalente", isto é, a palavra que possui peso, textura e valor por si mesma, liberta da obrigação de servir como mero veículo para um significado dicionarizado pré-existente (COMBES, 2008).

Apesar do forte caráter abstrato e experimental do zaum, os teóricos cubo-futuristas não encaravam essa linguagem como um simples exercício formal isolado da sociedade. Como exposto pelo teórico B. A. Kuchnier (apud POMORSKA, 2010, p. 119), a língua transracional possuía um objetivo social e dinâmico preciso, porque “[…] é antes de tudo a língua da ação pública, cujo ritmo e frequência superam muito, em velocidade e dinamismo, a lentidão do discurso humano usual [...]"

A zaum foi concebida para atuar na esfera pública, dialogando com o ritmo frenético das metrópoles industrializadas e das massas populares (BOLOGNESI, 1999) e ofereceu suporte tanto para as leituras públicas em praças e fábricas quanto para a renovação das possibilidades cênicas do teatro de vanguarda (BOLOGNESI, 1999; NASCIMENTO, 2019).

3 Maiakóvski: entre o deslocamento metonímico e o engajamento social

No grupo cubo-futurista, a postura de Vladímir Maiakóvski em relação à língua transracional apresentou nuances singulares em comparação a experimentadores como Krutchônikh. Enquanto Krutchônikh defendia o triunfo do som puro e a substituição do ator no palco pelos ruídos mecânicos de dínamos e máquinas, Maiakóvski recusou a abstração sonora desvinculada do sentido histórico e social (BOLOGNESI, 1999).

Para Maiakóvski, a poesia deveria cumprir "tarefas sociais" e participar ativamente da transformação da vida cotidiana (BOLOGNESI, 1999; COMBES, 2008). O autor incorporou os métodos cubistas através da imagem deslocada e do uso intensivo de metonímias em vez das metáforas tradicionais (BOLOGNESI, 1999).

Na sua dramaturgia inicial — como em “Vladimir Maiakóvski: uma tragédia” (1913) —, os objetos ganham vida e rebelam-se contra os seus criadores, espelhando no palco a alienação e a mutilação do trabalho sob a ordem industrial.

Além disso, Maiakóvski transpôs o dinamismo da língua transracional para a estrutura do verso em escada (léstnitza) e para o ritmo das marchas públicas (COMBES, 2008; GÚZEVA, 2023). Utilizava a sonoridade áspera, as rimas inesperadas e o vocabulário urbano das ruas para erguer o que chamava de "arsenal do canto” e "poesia-combate” (GÚZEVA, 2023; MEI, 2017).

Em consonância com sua célebre divisa de que sem forma revolucionária não há arte revolucionária, Maiakóvski alinhou a precisão rítmica do verso ao engajamento político e social.

Conclusão

A língua transracional (zaum) representou um marco divisor na história das vanguardas ocidentais. Ao emancipar a palavra da rigidez gramatical e transformá-la em matéria viva, o Cubo-Futurismo demonstrou que a linguagem é um campo dinâmico de invenção e ação política. Em Vladímir Maiakóvski, a intuição transracional desdobrou-se em uma poética oratória de praça pública, onde a pesquisa da forma e a busca por um homem novo fundiram-se na edificação de um artefato estético revolucionário.

Referências

BOLOGNESI, Mário Fernando. Suprematismo, cubo-futurismo e a tragédia, de Maiakóvski. Itinerários, Araraquara, n. 14, p. 91-102, 1999.

COMBES, Francis. Maiakóvski: o farol que era um poeta. Letras in.verso e re.verso, [s. l.], 16 maio 2008. Disponível em: https://www.blogletras.com/2008/05/maiakvski.html. Acesso em: 21 out. 2026.

GÚZEVA, Aleksandra. A revolução de Vladímir Maiakóvski na poesia russa. Janela para a Rússia, [s. l.], 19 jul. 2023. Disponível em: [suspicious link removed]. Acesso em: 21 out. 2026.

MEI, Letícia. Tradução comentada do poema longo Flauta Vertebral, de Vladímir Maiakóvski. Cadernos de Tradução, Porto Alegre, n. 45, p. 86-110, 2020.

MEI, Letícia. Uma outra Nuvem de Calças: a retradução em busca de Maiakóvski. Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo, n. 20, p. 209-226, 2017.

NASCIMENTO, Rodrigo Alves do. O movimento auto-organizado e o teatro de agitprop nos primeiros anos da Revolução Russa (1917-1921). Sala Preta, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 97-120, 2019.

POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo: a teoria formalista russa e seu ambiente poético. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.

VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Em ensaio primoroso, Roman Jakobson analisa Maiakóvski. Folha de S.Paulo, São Paulo, 28 out. 2006. Ilustrada. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2810200613.htm. Acesso em: 21 out. 2026.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 21/10/2026
Alterado em 21/10/2026
Comentários
Apostila - Direito dos contratos
Apostila - Lei de Falência e Recuperação de E...
Apostila - Direito do Trabalho - II
MOTA, Sílvia et al. Doenças pulmonares: uma v...
MOTA, Sílvia et al. Festa Surpresa
MOTA, Sílvia et al. Antologia de Poetas Brasi...
MOTA, Sílvia et al. Biodireito e Bioética
MOTA, Sílvia et al. Poetrix 4 - Terra
MOTA, Sílvia et al. Mãos que falam - antologi...
MOTA, Sílvia et al. Show de Talentos em Prosa...
MOTA, Sílvia. Apostilas jurídicas diversas
MOTA, Sílvia. Metodologia Jurídica II - Apost...
MOTA, Sílvia. Trabalhos acadêmicos: metodolog...
https://www.instagram.com/belasartesbelas_silviamota