Duas hélices ocupam o mesmo espaço sem se confundirem. Permanecem próximas, ligadas por aquilo que os olhos não alcançam.
Essa imagem oferece uma estranha semelhança com o amor: duas vidas distintas, uma ligação sem posse.
Na realidade, nascemos com uma história que não escolhemos. Existe uma sequência anterior a cada existência, uma escrita recebida antes da leitura. Recebemos uma herança, um código que nos antecede. Viver, porém, implica transformar a herança recebida.
Pela vida afora, cada encontro acrescenta uma pequena diferença àquilo que somos. O Outro não ocupa apenas um lugar nessa história, mas possui o condão de introduzir uma variação na sequência original, o que altera o próprio rumo da nossa existência.
É por demais estranho pensar que alguém possa entrar em nossa vida por acaso e, depois disso, tornar-se parte daquilo que somos. Não como lembrança apenas, mas como transformação.
Permitir a entrada de alguém no universo particular é aceitar a inclusão de uma diferença na própria sequência.
E onde entra o amor?
Amar talvez seja aceitar essa incompletude. Não desejamos encontrar alguém que nos complete, mas alguém diante de quem desapareça a ideia de uma versão definitiva de nós mesmos.
Nesse contexto, as hélices permanecem unidas sem perder a própria identidade. Uma não se transforma na outra. Cada qual conserva forma, origem, solidão. No entanto, entre ambas existe uma complementaridade capaz de sustentar a vida.
Essa pode ser a distância exata do amor: perto o bastante para transformar, longe o bastante para preservar a alteridade.
Quando o encontro termina, alguma coisa permanece. Não a pessoa inteira. Não o instante. Apenas uma alteração silenciosa na sequência. Uma pequena diferença entre o que éramos e aquilo em que nos tornamos.
Depois, a vida prossegue.
E, em algum lugar da espiral, uma base ainda guarda a forma de um encontro.
Rio de Janeiro, 3 de outubro de 2026 — 9h20