Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Herodes, o Grande: poder, violência e construção do mundo herodiano

 

Resumo

O presente artigo analisa a figura de Herodes, o Grande, como governante da Judeia sob tutela romana, destacando a articulação entre monumentalidade arquitetônica, violência política e fragilidade sucessória. A partir de Flávio Josefo e da historiografia contemporânea em língua portuguesa e espanhola, investiga-se como a construção do poder herodiano depende simultaneamente de legitimação imperial e de mecanismos internos de controle e suspeita. Discute-se ainda o episódio da chamada “matança dos inocentes”, presente no Evangelho de Mateus, à luz da crítica histórica e do contexto político do período.

 

Palavras-chave

Herodes, Judeia, Império Romano, Flávio Josefo, violência política, historiografia bíblica.

 

Introdução

 

Herodes surge na história como uma figura que não cabe facilmente na imagem única de um rei. Entre pedra e sangue, entre Roma e a Judeia, seu nome atravessa o tempo como um ponto de tensão. Não se trata apenas de biografia, mas de um modo de governo em que a política se confunde com arquitetura e o medo assume forma de administração.

 

A tradição cristã fixou sua imagem no episódio da perseguição às crianças em Belém, conhecido como “matança dos inocentes” (Mt 2,16–18). A historiografia, porém, desloca o foco para as estruturas de poder do Oriente romano, onde a autoridade se constrói menos por narrativa e mais por equilíbrio instável entre centro imperial e periferia governada.

 

1 Contexto histórico e nascimento

 

Nenhum poder nasce isolado; sempre há um solo anterior onde esse poder encontra apoio ou resistência. Herodes aparece nesse cenário como produto de uma transição em que o Mediterrâneo oriental já se encontra sob reorganização romana após as guerras civis do século I a.C. (BRAVO, 2008).

 

1.1 Nascimento

 

Herodes nasce em 73 a.C., na Indumeia ou, mais provavelmente, em Jerusalém (GOODMAN, 2025, p. 19). Seu avô, Antipas, era pagão e se converteu ao judaísmo sob o domínio dos Hasmoneus, tornando-se aliado do partido governante. No entanto, Herodes nunca foi considerado judeu pelas autoridades rabínicas sob a lei judaica (SHIFFER).

 

Segundo Josef Schmid (1973, p. 69): “Não era judeu, mas edomita pelo lado paterno”, o que o situa numa posição periférica em relação à identidade política tradicional da Judeia e contribui para uma percepção ambígua de sua legitimidade.

 

A vida de Herodes começou na corte da rainha asmoneia Shelomtzion (em grego, Salomé), que governava o que era então um

Estado judaico independente. Desde a infância, viveu perto do centro do poder: o seu pai, Antípatro, era um dos ministros de confiança de Shelomtzion. Porém, tinha apenas dez anos quando Jerusalém foi sitiada e capturada pelas forças romanas.

 

1.2 Ascensão

 

É nomeado rei da Judeia (incluindo Samaria e Idumeia) por Roma em 40 a.C. e consolida seu poder com a conquista de Jerusalém em 37 a.C., combinando nomeação imperial e força militar como fundamentos de autoridade.

 

Segundo Horsley (The Liberation of Christmas,(p. 42): “[...] várias inscrições indicam que Herodes adotou os títulos de ‘Admirador dos Romanos’ e ‘Admirador de César’”, reforçando sua inserção simbólica no universo imperial.

 

Herodes também promove uma política de construção urbana alinhada à cultura helenística. Constrói cidades como Sebaste e Cesareia Marítima, esta última com templo dedicado ao imperador Augusto. Gloriava-se de ser, por sua mentalidade, "mais grego do que judeu” (SCHMID, 1973, p. 69), o que evidencia sua adesão cultural ao modelo político greco-romano.

 

2 Governo: entre romanização e tensão interna

 

Todo governo sob tutela externa tende a produzir uma duplicidade estrutural: uma face pública de estabilidade e outra subterrânea, marcada por vigilância e controle.

 

Em Herodes, essas dimensões não se separam.

 

2.1 Política de construção

 

A pedra assume função política direta. Construir é fixar o poder para além da fragilidade sucessória.

 

Herodes reconstrói o Templo de Jerusalém, além de erguer a fortaleza Antônia, o palácio real, o teatro e o anfiteatro. O conjunto monumental indica não apenas administração urbana, mas inscrição simbólica do poder no espaço.

 

Nesse sentido, como afirma Köester (1988, p. 469): “[...] o esplendor e a crueldade de seu reinado combinaram-se para fazer com que ele fosse visto como um déspota."

 

2.2 Violência política e paranoia dinástica

 

As fontes antigas, especialmente Flávio Josefo (1997), registram um padrão recorrente de execuções familiares e eliminação de opositores políticos. Ken Spiro o descreve: "[...] um louco que assassinou sua própria família e inúmeros rabinos, Herodes foi também o maior construtor da história judaica." Esse comportamento assassino não pode ser compreendido como episódico, mas como estrutural.

 

A ausência de sucessão plenamente estabilizada e a dependência de Roma criam um campo político em que qualquer proximidade ao núcleo dinástico pode ser interpretada como ameaça potencial. Nesse contexto, a violência assume caráter preventivo.

 

3 A chamada “matança dos inocentes”

 

Quando uma narrativa atravessa séculos, ela deixa de ser apenas relato e passa a funcionar como símbolo.

 

Segundo o Evangelho de Mateus (Mt 2, 16-18), Herodes ordena a execução de meninos com até dois anos em Belém, motivado pelo temor do nascimento de um “rei dos judeus”. Essa reação se torna compreensível dentro da lógica política de seu reinado: um governante dependente de Roma, sem legitimidade dinástica consolidada e inserido em um ambiente onde disputas sucessórias e rumores de pretensão régia eram elementos recorrentes da instabilidade política.

 

Nesse cenário, a ameaça não precisa ser efetiva para produzir resposta política; a simples possibilidade de substituição pode adquirir estatuto de risco real.

 

Contudo, o episódio não aparece em fontes históricas externas ao texto bíblico, especialmente em Flávio Josefo, que registra outras violências do período sem mencionar esse acontecimento (BROWN, 1993).

 

A historiografia contemporânea tende a interpretar essa passagem como construção teológica que organiza narrativamente o conflito entre poder estabelecido e figura messiânica emergente.

 

4 Morte e sucessão

 

A morte de Herodes ocorre em 4 a.C., em Jericó, após doença prolongada descrita com detalhe por Flávio Josefo (JOSEFO, Antiguidades judaicas). O relato enfatiza sofrimento físico progressivo e deterioração do corpo como parte do fim do reinado.

 

Após sua morte, o reino é dividido entre seus filhos sob supervisão romana: Arquelau (Judeia e Samaria), Herodes Antipas (Galileia e Pereia) e Filipe (Ttureia e Traconítides), o que revela a fragilidade de um sistema político centrado na figura pessoal do governante.

 

5 Interpretação historiográfica

 

A leitura contemporânea evita sínteses morais e organiza a figura de Herodes como interseção de funções políticas distintas.

 

Herodes pode ser compreendido como mediador imperial entre Roma e Judeia. Sua autoridade depende de produção simbólica intensa, na qual a arquitetura substitui a ausência de legitimidade dinástica consolidada. A violência associada ao seu governo não aparece como desvio, mas como componente estrutural de um sistema em que a manutenção do poder exige eliminação preventiva de riscos percebidos.

 

Conclusão

 

Herodes permanece como figura que resiste à simplificação. Seu reinado articula monumentalidade e medo, integração imperial e instabilidade interna, construção e repressão. A tradição religiosa o fixa como perseguidor; a historiografia o reinscreve como operador político dentro da lógica do governo cliente romano.

 

Entre essas leituras permanece uma zona de indeterminação onde o personagem histórico não se esgota nem na condenação nem na justificativa, mas na ambiguidade de um poder que precisa construir para durar e eliminar para permanecer.

 

Referências

 

BRAVO, Gonzalo. Historia del mundo antiguo. Madrid: Alianza Editorial, 2008.

 

BROWN, Raymond E. The Birth of the Messiah: . New York: Doubleday, 1993.

 

FERREIRA, João Cesário Leonel. Jesus, Herodes e os magos: uma interpretação histórico-literária de MT 2.1-12. Fides Reform/2004-001-076. 05/11/04. Disponível em: https://share.google/gtILrqlwZ1S5FusFL. Acesso: 28 jun. 2026.

 

FRAZÃO, Diva. Biografia de Herodes, o Grande - eBiografia. Disponível em: https://share.google/qNKmQDlPtEx0gTlKHerodes. Acesso: 28 jun. 2026.

 

GOODMAN, Martin. Herodes, o grande: rei judeu num mundo romano. Lisboa: Bertrand Editora, 2025. Tradução de Maria Ferro. 44 p. Título original: Herod the great - jewish king in a roman world. Disponível em: https://share.google/N8mkKt4zCDPvL2GNi. Acesso: 28 jun. 2026.

 

KÖESTER, Helmut. Introducción al Nuevo Testamento. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1988.

 

JOSEFO, Flávio. Antiguidades judaicas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, várias edições.

 

JOSEFO, Flávio. A guerra dos judeus. Madrid: Gredos, 1997.

 

SCHMID, Josef. El evangelio según San Mateo. Barcelona: Herder, 1973.

 

SCHÜRER, Emil. Historia del pueblo judío en tiempos de Jesús. Madrid: Cristiandad, 1985.

 

SHIFFER, Mark. A relação complexa de Herodes com o judaísmo. Disponível em: https://share.google/pvP21st3km0XLEZM4. Acesso: 28 jun. 2026.

 

SPIRO, Ken. Rei Herodes, o grande: templo de Herodes. Disponível em: https://share.google/888Au2NjwUB6O7YTk. Acesso: 28 jun. 2026.

 

Rio de Janeiro. Texto sem data.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 13/09/2026
Alterado em 13/09/2026
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