Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

Tergiversando com Camões: o amor como enigma

Camões não diz simplesmente “o amor é fogo”. Diz: “Amor é fogo que se arde, sem se ver”

O paradoxo surge de imediato: o fogo pressupõe chama, luz, matéria visível; o amor, porém, arde sem se deixar ver. “Que se arde” sugere uma combustão interior, quase autônoma.

Depois:

“É ferida que dói, e não se sente”

O amor passa do fogo ao corpo: é ferida, mas uma ferida que escapa à própria sensação.

Então:

“É um contentamento descontente”

Talvez aqui esteja o centro do soneto: o amor como coexistência dos contrários.

E:

“É dor que desatina sem doer.”

“Desatinar” acrescenta a perda do tino, da razão, do equilíbrio interior.

A primeira quadra se constrói assim:

fogo → ferida → contentamento → dor

E cada imagem contém uma impossibilidade:

arde sem se ver;

dói sem se sentir;

contenta e descontenta;

desatina sem doer.

Na segunda quadra, a contradição passa à vontade:

“É um querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.”

O amante quer a própria prisão. A liberdade escolhe sua perda. Quem ama serve a quem o venceu e permanece leal a quem o mata. A sequência se estreita:

prisão → serviço → lealdade → morte.

Nos versos finais, Camões interroga o próprio paradoxo:

“Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

O amor deveria produzir “amizade”, vínculo e aproximação. Mas como fazê-lo sendo tão contrário a si mesmo?

A pergunta permanece sem resposta. E talvez seja justamente esse o ponto: o soneto não define o amor; circunscreve o indizível por meio de contradições.

Há ainda uma palavra decisiva:

“... é o mesmo Amor?”

“Mesmo” introduz uma última dúvida: esse conjunto de contrários ainda pode ser chamado de uma única coisa?

Camões encerra o soneto sem solucionar o enigma. Não o círculo da compreensão, mas o círculo do Amor.

Rio de Janeiro. Texto sem data.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 13/09/2026
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