Música: Francisco Braga
Letra: Olavo Bilac
1
Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
Refrão
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
2
Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.
Refrão
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
3
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.
Refrão
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
4
Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão da Justiça e do Amor!
Refrão
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
Origem
Esta é a letra do Hino à Bandeira Nacional, com música de Francisco Braga e poema de Olavo Bilac. Foi apresentada pela primeira vez em 19 de novembro de 1906, data comemorativa da Bandeira Nacional.
Um detalhe interessante: o título costuma aparecer como “Hino à Bandeira Nacional”, e não simplesmente “Hino da Bandeira”. A obra exalta a bandeira como símbolo da Pátria, associando-a à esperança, paz, dever, justiça e amor.
Análise das estrofes
O Hino à Bandeira Nacional é um poema de forte caráter cívico, mas Olavo Bilac não se limita a exaltar o tecido, as cores ou o desenho da bandeira. A bandeira aparece como símbolo moral da própria Pátria.
1 A bandeira como símbolo de esperança e paz
“Salve, lindo pendão da esperança”
Pendão é uma bandeira, estandarte ou insígnia.
Bilac começa com uma saudação solene: “Salve”. A bandeira representa a esperança e, logo em seguida, a paz:
“Salve, símbolo augusto da paz!”
“Augusto” significa solene, grandioso, digno de veneração. A bandeira, portanto, recebe uma dimensão quase sagrada.
Há uma passagem particularmente bonita:
“Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.”
A visão da bandeira desperta na memória a grandeza do Brasil. Não é apenas um objeto: é um signo que evoca a Pátria.
Refrão — o “peito juvenil”
“Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil”
Aqui aparece uma ideia muito própria do início da República: a formação cívica dos jovens.
O sentimento pela Pátria é apresentado como algo guardado no peito, quase como uma força interior. A bandeira recebe esse afeto porque representa a terra natal:
“Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!”
A repetição do refrão reforça essa relação afetiva: símbolo → terra → Brasil → amor.
2 A bandeira como imagem do território brasileiro
Nesta estrofe, Bilac olha para a própria composição da bandeira:
“Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul”
O verbo “retratas” é fundamental. A bandeira passa a ser uma representação visual da natureza brasileira.
O azul remete ao céu; o verde, às matas:
“A verdura sem par destas matas”
E surge o Cruzeiro do Sul, constelação de enorme importância simbólica para o Brasil:
“E o esplendor do Cruzeiro do Sul.”
É uma estrofe essencialmente visual. Bilac transforma a bandeira numa espécie de paisagem condensada do Brasil.
3 Da contemplação ao dever
Ao meu olhar poético, esta é uma das estrofes mais importantes do poema:
“Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;”
Perceba a progressão:
contemplar → compreender → cumprir.
A bandeira não existe apenas para ser admirada. Sua presença deveria despertar no cidadão uma consciência de responsabilidade.
E então:
“E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.”
O futuro do país depende dos seus “filhos”. Existe aqui uma concepção bastante clara de cidadania: amar a Pátria implica também assumir deveres perante ela.
4 A bandeira acima dos momentos humanos
A última estrofe amplia ainda mais o símbolo:
“Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,”
É uma imagem muito poderosa. A bandeira permanece acima das circunstâncias: festa ou dor, vitória ou sofrimento, alegria ou crise.
Por isso:
“Paira sempre, sagrada bandeira,”
O verbo “pairar” cria uma imagem de algo elevado, suspenso sobre a nação.
E o poema termina com dois valores universais:
“Pavilhão da Justiça e do Amor!”
Não é apenas o pavilhão do Brasil. É o pavilhão de uma ideia de Brasil: uma nação fundada na justiça e no amor.
A estrutura do poema
Há uma construção muito bem organizada:
1ª estrofe — a bandeira como símbolo
→ esperança, paz e grandeza da Pátria.
2ª estrofe — a bandeira como imagem
→ céu, matas e Cruzeiro do Sul.
3ª estrofe — a bandeira como consciência
→ dever, amor e responsabilidade dos cidadãos.
4ª estrofe — a bandeira como valor
→ presença permanente sobre a nação, na festa e na dor.
E o refrão, repetido depois de cada estrofe, funciona como uma espécie de coração do hino: o afeto pelo símbolo e pela terra brasileira.
Há uma trajetória muito bonita no decorrer deste poema: da visão para a memória; da memória para o sentimento; do sentimento para o dever; e do dever para a Justiça e o Amor.
Rio de Janeiro. Texto sem data.