Bem comum. Duas palavras simples, quase esquecidas no vocabulário de quem confunde o espaço público com extensão dos próprios interesses.
Quem ocupa uma função pública carrega uma responsabilidade que ultrapassa a própria pessoa. No Direito, essa responsabilidade ganha ainda mais peso, porque cada decisão, cada parecer, cada ato pode alcançar a vida de muitos.
Integridade não é ornamento. É escolha. Probidade, retidão e justiça constituem a base de qualquer atuação comprometida com a coletividade.
O problema surge quando o indivíduo ocupa o lugar da sociedade. O ultra-individualismo, o consumismo e certo narcisismo vestido de mérito alimentam a ideia de que a vantagem pessoal justifica quase tudo. O interesse particular ganha voz; o coletivo perde espaço.
A corrupção representa o ponto extremo dessa inversão. Quando uma decisão judicial, um parecer ou um indiciamento adquire preço, a Justiça perde sua dimensão pública. O direito de todos cede lugar ao poder de quem pode pagar. O mais grave, porém, não está apenas no dinheiro que muda de mãos. Está na confiança que desaparece.
Uma sociedade pode sobreviver a muitas imperfeições. Sem confiança nas instituições, porém, o próprio sentido de Justiça começa a se dissipar no silêncio das consciências.
O bem comum não pertence a um grupo, a um partido, a uma classe ou a um indivíduo. Pertence a todos.
Talvez a verdadeira medida de uma função pública esteja justamente nisso: quanto maior o poder, menor deveria ser a sombra do interesse pessoal.
Quando essa medida se perde, a Justiça deixa de servir à coletividade. E o bem comum cede seu lugar à moeda de troca.
Triste, muito triste.
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2026 — 7h50