A vaidade encontrou no mérito um álibi elegante.
Basta ocupar uma posição prestigiosa para que o salário pareça pequeno, a vantagem pareça justa e o privilégio adquira nome de reconhecimento. O argumento costuma ser simples: tanta competência merece mais. E o “mais” nunca termina.
Surge uma espécie de contabilidade moral em que títulos, cargos e anos de carreira servem como crédito para o consumo, a ostentação e novas vantagens.
O patrimônio passa a funcionar como prova de valor. Carros, imóveis, viagens, restaurantes, roupas, círculos sociais: tudo compõe a vitrine de uma superioridade que precisa ser exibida. A riqueza deixa de ser consequência possível do trabalho e assume a condição de certificado de excelência.
No serviço público, a questão ganha contornos mais graves. O cargo pertence à República; os recursos têm origem coletiva; a autoridade decorre de uma função, não de uma qualidade pessoal.
Quando o ocupante transforma essa posição em instrumento de distinção econômica, o mérito perde sua natureza. A competência, que deveria qualificar o serviço, passa a justificar vantagens privadas.
O problema não está em ganhar bem, prosperar ou desfrutar dos frutos de uma carreira legítima, mas começa quando a remuneração nunca parece suficiente, quando todo limite recebe a etiqueta de desvalorização e quando a própria posição profissional serve como argumento para exigir tratamento excepcional.
Narcisismo meritocrático é isso: a convicção de que o próprio mérito autoriza privilégios que a função pública jamais poderia oferecer.
No fim, a questão não é quanto alguém merece ganhar, mas saber quanto de si uma pessoa acredita merecer daquilo que pertence a todos.
Rio de Janeiro, 06 de setembro de 2026 — 18h30.