Ar (conto)
— Emilia Pardo Bazán (autora)
— Rafaela de Souza Viana (tradutora)
PARDO BAZÁN, Emilia. Ar. Tradução de Rafaela de Souza Viana. Magma, n. 20, 2024.
EMILIA PARDO BAZÁN (1851-1921) foi uma poetisa, romancista, contista, dramaturga, jornalista e crítica literária espanhola, sua obra é reconhecida por abordar temáticas sobre a condição da mulher espanhola oitocentista.
RAFAELA DE SOUZA VIANA é mestranda em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Graduada em Letras-Espanhol (2014) e em Letras-Português (2021) pela UFPB. Contato: rafaela_viana_2009@hotmail.com. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4121774949295956.
Publicado originalmente em 1908, o conto “Ar”, de Emilia Pardo Bazán, chega ao português brasileiro em tradução de Rafaela de Souza Viana. Em poucas páginas, a escritora espanhola constrói uma narrativa perturbadora sobre a violência psicológica contra a mulher.
Cecília, a protagonista, depois de sofrer a violência emocional de seu companheiro, desenvolve a convicção delirante de que não possui corpo: é apenas ar. A princípio, essa ideia parece pertencer exclusivamente ao território da loucura. Entretanto, a metáfora revela algo muito mais profundo: a mulher que foi sendo apagada pelo olhar e pelas palavras do outro até perder a própria percepção de existência.
É justamente aí que reside a força do conto. Pardo Bazán transforma uma violência aparentemente invisível em imagem concreta. O controle, a desvalorização e a negação da vontade feminina não deixam marcas no corpo de Cecília, mas destroem progressivamente sua identidade.
O título é de uma simplicidade enganosa. O ar não pode ser visto nem segurado, mas é indispensável à vida. Cecília, ao acreditar que se tornou ar, permanece presente e, ao mesmo tempo, sente-se inexistente. Seu corpo, que deveria ser território de autonomia, desaparece simbolicamente.
O desfecho trágico confere ao conto uma dimensão ainda mais dolorosa. O suicídio de Cecília não surge apenas como consequência de um sofrimento individual, mas como o extremo de um processo de apagamento que começou muito antes, quando sua vontade deixou de ser reconhecida.
Mais de um século depois, “Ar” permanece atual porque a violência psicológica continua sendo uma forma de destruição que muitas vezes não deixa vestígios visíveis. Pardo Bazán compreendeu isso com uma lucidez extraordinária: uma pessoa pode ser ferida sem que ninguém lhe toque o corpo.
A tradução de Rafaela de Souza Viana recupera essa narrativa para o leitor brasileiro, preservando sua atmosfera histórica e permitindo que a voz de Pardo Bazán atravesse o tempo.
“Ar” é, afinal, um conto sobre a loucura apenas na superfície. Em sua camada mais profunda, é sobre poder, linguagem, corpo e apagamento. E talvez seja essa a imagem que permanece depois da leitura: Cecília não desaparece de uma vez. Vai, aos poucos, se tornando ar.
Piquete. Texto sem data.