Há um céu que me nega
e o abismo que me chama.
Sob meus pés,
uma linha hipócrita —
quase matéria,
quase delírio —
que sustenta, indissoluta,
a improbabilidade
do meu corpo.
Não avanço.
— negocio com o vazio
o vento que me desnomeia,
mas não desnorteia,
enquanto a altura desmente
a gravidade monstruosa
do que julguei ser chão.
Equilibro-me.
Não há corda,
mas vertigem;
há heresia sem pudor
no passo que vence a queda
e há paradoxo na fé
que compassa o coração.
Prossigo.
Não desconheço
a incoerência do abismo,
que assusta e encanta —
reconheço-o sofrível,
como a parte de mim
que jamais terá pés.
Será isto o equilíbrio?
Não a ausência
do desmoronamento,
mas a estranha lucidez
de permanecer inteira
enquanto o mundo
se desfaz aos meus pés.
Há um céu que me nega
e o abismo que me chama
Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2026 — 12h19