Não pelos lábios,
mas pelo instante
em que dois abismos
se possuem.
Há violência na boca
que encontra outra boca
— o tempo perde o nome,
o corpo perde a fronteira
e o que parecia
apenas um desejo feliz
torna-se sentença.
Beijar é consentir
na breve e estarrecedora
abolição de mim
— por um segundo,
não há início ou fim.
Estranho cativeiro
— não a corrente oblíqua
que impede a fuga,
mas o vínculo solto
da fuga indesejável.
O beijo me aprisiona
— o beijo de amor —
porque revela indeciso
uma liberdade que dói.
Há cárceres sem paredes,
algemas sem metal,
juramentos benditos
sem uma única palavra.
Basta uma boca
que, sendo boca, beija.
Quando se afasta de mim,
fica em mim a estranha
geometria da ausência
— esse lugar etéreo
que não existia
e agora me possui.
O beijo me aprisiona
— o beijo de amor —
e há nessa prisão
algo sensorial e trágico,
pois o que me condena
é exatamente aquilo
que desejo eterno.
Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2026 — 5h