Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

Vanda Witoto — ancestralidade e poder

 

Resumo

Este artigo analisa a trajetória de Vanda Witoto, liderança indígena do povo Witoto, sob a perspectiva das relações entre ancestralidade, identidade, educação, território e participação política. A pesquisa reúne dados biográficos, registros institucionais, depoimentos da própria Vanda Witoto, entrevistas, produção jornalística e informações constantes de sua biografia autorizada, com o propósito de acompanhar as diferentes etapas de sua formação pessoal, profissional e política. O estudo aborda sua infância no Alto Solimões, a transferência para Manaus, as experiências de trabalho e formação, o ingresso na Universidade do Estado do Amazonas e a descoberta de seu nome indígena, Derequine, como momento decisivo de reconstrução identitária. Examina sua atuação comunitária no Parque das Tribos e, especialmente, sua participação nas ações de enfrentamento à pandemia de Covid-19, período que ampliou sua projeção pública e internacional. Analisa também sua atuação na educação indígena, na valorização dos conhecimentos ancestrais, no fortalecimento das mulheres, na defesa ambiental e na discussão sobre justiça climática. Por fim, acompanha sua inserção na política institucional e a transformação de sua experiência comunitária em atuação voltada à representação dos povos indígenas. A análise permite compreender a ancestralidade não apenas como vínculo com o passado, mas como elemento presente na construção da identidade, da ação coletiva e da representação política de Vanda Witoto.

 

Palavras-chave: Vanda Witoto; ancestralidade; identidade indígena; povos indígenas; protagonismo feminino.

 

Introdução

 

A trajetória de Vanda Witoto insere-se em uma história marcada pela presença indígena na Amazônia, pelas consequências de processos históricos de violência e deslocamento e pelas transformações provocadas pela vida urbana. Sua biografia reúne experiências que atravessam diferentes espaços sociais: a comunidade indígena do Alto Solimões, o trabalho doméstico em Manaus, a formação profissional na área da saúde, a universidade, a organização comunitária, a educação indígena, a defesa ambiental e a política institucional.

 

Nascida em 20 de setembro de 1987, no município de Amaturá, no Alto Solimões, Vanda viveu os primeiros anos de sua vida em uma comunidade indígena. Posteriormente, mudou-se para Manaus, onde precisou conciliar trabalho e estudo. A formação como técnica de enfermagem e, mais tarde, o ingresso na Universidade do Estado do Amazonas ampliaram suas possibilidades profissionais e abriram espaço para uma compreensão mais profunda de sua própria identidade.

Um dos momentos decisivos de sua trajetória ocorreu quando, já adulta, teve contato com informações registradas em seu Registro Administrativo de Nascimento de Indígena. A descoberta do nome indígena Derequine e de seu pertencimento ao povo Witoto desencadeou um processo de reconstrução identitária. A universidade, nesse contexto, ultrapassou a função de espaço acadêmico e tornou-se lugar de questionamento sobre a história familiar, a língua, a ancestralidade e as formas de silenciamento cultural que haviam alcançado gerações anteriores. Uma pesquisa acadêmica da Universidade do Estado do Amazonas registra o depoimento de Vanda segundo o qual o acesso à universidade, aos 27 anos, lhe permitiu questionar as violências e a negação de direitos que vivenciava.

 

Essa reconstrução não permaneceu restrita à esfera individual. A partir dela, Vanda passou a dedicar parte significativa de sua atuação à preservação da cultura Witoto, à educação de crianças indígenas e à defesa dos direitos de povos originários que vivem em áreas urbanas. A Casa de Conhecimento Ancestral, desenvolvida no espaço comunitário relacionado à sua atuação, tornou-se um dos instrumentos dessa política de transmissão cultural.

 

O Parque das Tribos, em Manaus, ocupa lugar central nesse percurso. A comunidade reúne diferentes povos indígenas e expressa uma realidade que durante muito tempo recebeu pouca atenção das políticas públicas: a existência de populações indígenas em contexto urbano. A atuação de Vanda nesse espaço aproximou sua formação profissional das necessidades concretas da comunidade e consolidou sua liderança.

 

Durante a pandemia de Covid-19, essa experiência alcançou dimensão nacional. Vanda participou do acompanhamento de moradores, da orientação sanitária, da mobilização de recursos e da organização de uma unidade comunitária de atendimento. A atuação ganhou grande repercussão após sua vacinação em 18 de janeiro de 2021, quando recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 aplicada no Amazonas. A imprensa registrou também sua participação anterior em ações de acompanhamento de moradores do Parque das Tribos durante a crise sanitária.

 

Sua trajetória posterior ampliou-se para a educação, a cultura, a autonomia econômica das mulheres indígenas, a defesa da Amazônia e a justiça climática. A presença em espaços nacionais e internacionais passou a colocar em evidência uma perspectiva indígena sobre questões ambientais que frequentemente são discutidas sem a participação daqueles que vivem nos territórios amazônicos.

 

A entrada na política eleitoral constituiu outro desdobramento dessa trajetória. Em 2022, Vanda concorreu ao cargo de deputada federal pelo Amazonas e obteve 25.545 votos, sem alcançar a eleição. Em 2024, concorreu à Câmara Municipal de Manaus pela Rede Sustentabilidade. Recebeu 8.374 votos e terminou na 23.ª colocação entre os candidatos, mas não conquistou uma cadeira em razão do quociente eleitoral.

 

Em 2026, filiou-se ao MDB com o objetivo de disputar novamente uma vaga na Câmara dos Deputados.

 

A biografia de Vanda Witoto permite, portanto, acompanhar a passagem de uma experiência individual de reencontro com a identidade para uma atuação pública de caráter coletivo. Sua história articula memória e contemporaneidade, território e cidade, ancestralidade e política, formação profissional e compromisso comunitário.

 

1 ORIGEM, INFÂNCIA E ANCESTRALIDADE

 

1.1 Nascimento e origem no Alto Solimões

Vanda Witoto, nome civil Vanderlécia Ortega dos Santos, nasceu em 20 de setembro de 1987, no município de Amaturá, na região do Alto Solimões, no Amazonas. Sua origem está vinculada ao povo Witoto e à história de uma população indígena cuja trajetória ultrapassa as fronteiras nacionais atualmente estabelecidas na Amazônia.

 

A região do Alto Solimões constitui o cenário inicial de sua formação. Ali, a vida comunitária não se organizava a partir da separação rígida entre trabalho, educação, cultura e convivência. A criança participava das atividades necessárias à vida coletiva e aprendia mediante a observação, a prática e a convivência com os mais velhos.

 

O nome indígena de Vanda, Derequine, seria conhecido por ela apenas posteriormente. A descoberta ocorreria no contexto de seu ingresso no ensino superior e representaria uma inflexão profunda em sua relação com a própria história.

 

A distância entre o nascimento e a descoberta do próprio nome revela uma das questões centrais de sua biografia: a possibilidade de pertencer a uma cultura cuja transmissão sofreu interrupções históricas.

 

1.2 A família e as raízes Witoto

 

A história familiar de Vanda está relacionada aos processos de deslocamento e violência que atingiram os Witoto. A perseguição sofrida por populações indígenas durante o ciclo da borracha produziu mortes, dispersões e rupturas culturais. A memória desse período permaneceu entre os sobreviventes e seus descendentes.

 

Na trajetória de Vanda, a relação com essa história aparece associada à perda ou ao enfraquecimento da transmissão da língua e de outros elementos culturais. A reconstrução identitária posterior não pode ser compreendida sem considerar esse passado.

 

O silêncio familiar não significou ausência de pertencimento. A identidade permanecia inscrita na genealogia, no corpo e na memória familiar, ainda que muitos de seus sinais não tivessem sido transmitidos à geração seguinte.

 

A biografia escrita por Marília Gabriela Gondim Rezende registra a importância do pai de Vanda, Edson Ortega, na formação de seus valores e no incentivo aos estudos. A obra também recupera aspectos da vida cotidiana de sua família e da comunidade de origem.

 

1.3 A infância na comunidade

 

A infância de Vanda foi marcada pela participação nas tarefas da comunidade. Segundo relatos reunidos em sua biografia, as crianças aprendiam desde cedo atividades como plantar e pescar, além de auxiliarem nos trabalhos domésticos.

 

O cotidiano possuía, assim, uma dimensão educativa permanente.

 

O conhecimento não estava restrito ao espaço escolar. O ambiente natural, a família e a própria comunidade constituíam espaços de aprendizagem. O trabalho possuía também uma dimensão formativa, pois introduzia a criança nas responsabilidades da vida coletiva.

 

A biografia de Marília Rezende descreve a rotina de Vanda na comunidade e destaca a influência de seu pai, que valorizava a educação e estimulava as crianças a estudar.

 

Esse princípio permaneceria presente em sua trajetória adulta.

 

A educação tornou-se instrumento de transformação individual, mas também elemento de preservação cultural.

 

1.4 Educação, costumes e relação com o território

 

A infância amazônica de Vanda foi marcada por uma relação direta com o território. A natureza não aparecia como cenário exterior à vida humana. Rio, floresta, alimentos, trabalho e deslocamentos faziam parte da existência cotidiana.

 

Essa relação ajudaria a formar uma concepção de educação que posteriormente encontraria expressão em seu trabalho com crianças indígenas.

 

A transmissão cultural envolve mais do que informações sobre uma determinada sociedade. Envolve formas de perceber o mundo.

 

Por essa razão, a recuperação de práticas tradicionais possui importância que ultrapassa a dimensão folclórica. Ensinar uma língua, um grafismo, um canto ou uma prática tradicional significa restabelecer uma relação entre as novas gerações e a memória coletiva.

 

O trabalho desenvolvido posteriormente por Vanda com crianças indígenas retoma esse princípio. O Instituto Witoto apresenta a educação e a transmissão de conhecimentos ancestrais como dimensões centrais de sua atuação.

 

1.5 O silêncio e a transmissão interrompida da identidade

 

Uma das características mais particulares da biografia de Vanda está no fato de que a reconstrução de sua identidade ocorreu na idade adulta.

 

Vanda cresceu sem domínio pleno da língua Witoto e sem conhecimento integral dos símbolos e das referências culturais de seu povo. A descoberta de seu nome indígena não foi, portanto, simples informação documental.

 

Foi um reencontro.

 

A partir daquele momento, perguntas antigas adquiriram outra dimensão. O que havia acontecido com a língua? Por que determinados conhecimentos não foram transmitidos? Por que a identidade indígena aparecia de forma tão discreta no ambiente familiar?

 

A investigação dessas questões aproximou Vanda da história de seu povo e das violências que atingiram seus antepassados.

A universidade tornou-se, assim, espaço de descoberta da própria ancestralidade.

 

2 MANAUS, TRABALHO E FORMAÇÃO DE UMA IDENTIDADE

 

2.1 A mudança para Manaus

 

A educação determinou a saída de Vanda da comunidade de origem. A mudança para a cidade representou uma ruptura geográfica e social.

 

Manaus oferecia oportunidades educacionais inexistentes ou mais limitadas no lugar de origem, mas também impunha outras condições de sobrevivência.

 

A adolescente indígena passou a conviver com um ambiente urbano no qual sua origem não constituía necessariamente fonte de reconhecimento. A cidade exigia adaptação, trabalho e autonomia.

 

A trajetória posterior revela que Vanda não abandonou a comunidade para deixar para trás sua história. O deslocamento criou uma relação mais complexa com essa história.

 

A cidade tornou-se o espaço no qual precisaria aprender a sobreviver e, posteriormente, o espaço no qual passaria a reivindicar o direito de existir como indígena.

 

2.2 Adolescência, trabalho e sobrevivência

 

A adolescência foi marcada pelo trabalho doméstico. Para permanecer estudando, Vanda passou por diferentes casas de família.

 

A experiência representou uma etapa de grande esforço pessoal. A educação, incentivada desde a infância pelo pai, dependia agora de uma combinação entre trabalho e disciplina.

 

A biografia publicada por Marília Rezende registra que Vanda passou anos trabalhando em casas de família até conseguir uma ocupação que lhe proporcionasse condições mais favoráveis para continuar os estudos. 

 

Esse período contribuiu para formar uma característica que atravessaria sua vida pública: a compreensão de que a educação não pode ser dissociada das condições materiais que permitem ao indivíduo permanecer estudando.

 

Para quem precisa escolher entre trabalhar e estudar, o direito à educação assume significado concreto.

 

2.3 A formação como técnica de enfermagem

 

A formação na área da enfermagem representou uma conquista profissional e, simultaneamente, uma aproximação com o campo que posteriormente marcaria sua atuação pública.

 

A técnica de enfermagem encontrou, na experiência comunitária, uma aplicação que ultrapassava o exercício regular da profissão.

No Parque das Tribos, os conhecimentos adquiridos na formação profissional foram empregados em situações nas quais a assistência pública não alcançava a comunidade na intensidade necessária.

 

A experiência da pandemia demonstraria a importância dessa formação.

 

Antes mesmo da Covid-19, porém, o conhecimento em saúde já fazia parte de sua atuação junto à população indígena.

 

2.4 O ingresso na Universidade do Estado do Amazonas

 

Vanda chegou ao ensino superior em idade adulta. O ingresso na Universidade do Estado do Amazonas representou uma mudança importante na trajetória.

 

A universidade proporcionou contato com conhecimentos acadêmicos e, simultaneamente, ofereceu instrumentos para questionar experiências que até então pareciam apenas individuais.

 

A educação superior permitiu-lhe olhar para a própria história de outra maneira.

 

A formação acadêmica não significou afastamento da experiência indígena. Produziu, ao contrário, condições para uma leitura crítica dessa experiência.

 

O depoimento de Vanda registrado em pesquisa acadêmica da UEA é explícito ao associar seu ingresso na universidade à possibilidade de compreender as violências e a negação de direitos que atravessavam sua vida.

 

2.5 A descoberta de Derequine

 

Foi nesse processo que surgiu uma das passagens mais importantes de sua biografia.

 

Para ingressar na universidade como indígena, Vanda precisou apresentar documentação que registrava informações sobre sua origem. O contato com o RANI revelou seu nome indígena, Derequine, e elementos de seu pertencimento ao povo Witoto.

 

A descoberta modificou a relação com a própria identidade. Não se tratava de adquirir uma identidade nova, mas de reconhecer uma identidade anterior ao próprio conhecimento que possuía dela. O nome tornou-se uma espécie de chave para uma história interrompida. A partir dele, Vanda começou a buscar respostas sobre sua família, sua cultura e a trajetória do povo Witoto.

 

2.6 O reencontro com a identidade Witoto

 

O reencontro com a identidade não ocorreu de uma só vez. Foi um processo.

 

Vanda buscou informações, aproximou-se de parentes, recuperou elementos culturais e passou a refletir sobre a relação entre identidade e território.

 

Sua experiência pessoal transformou-se em questão política. Se uma mulher indígena podia crescer em uma cidade sem conhecer plenamente a própria língua e sua história, outras crianças também poderiam passar por experiência semelhante.

 

A reconstrução de sua identidade adquiriu, assim, uma dimensão coletiva. A ancestralidade deixou de ser somente passado. Passou a constituir um compromisso com o futuro.

 

3 COMUNIDADE, SAÚDE E PROTAGONISMO INDÍGENA

 

3.1 O Parque das Tribos e a presença indígena urbana

 

O Parque das Tribos ocupa posição central na vida adulta de Vanda Witoto.

 

A comunidade tornou-se referência para a presença indígena em contexto urbano em Manaus. Sua composição reúne diferentes povos indígenas, demonstrando que a experiência indígena contemporânea não se limita às comunidades localizadas em territórios oficialmente reconhecidos.

 

O espaço expressa uma realidade complexa.

Seus moradores vivem na cidade, utilizam serviços urbanos e participam da economia local, mas continuam vinculados a identidades, culturas e relações comunitárias próprias.

 

A existência indígena urbana desafia uma concepção restritiva segundo a qual o indígena somente seria reconhecido como tal quando estivesse fora dos grandes centros.

 

Vanda transformou essa questão em uma de suas principais bandeiras.

 

3.2 A luta pelo reconhecimento

 

A defesa dos indígenas urbanos tornou-se uma dimensão permanente de sua atuação.

Durante a pandemia, essa questão adquiriu caráter urgente. A assistência pública encontrava dificuldades para enquadrar adequadamente indígenas residentes em Manaus, sobretudo em relação ao atendimento específico destinado às populações indígenas.

 

Vanda denunciou a invisibilidade dessas pessoas nos registros e nas políticas públicas. Sua crítica partia de uma premissa simples: a mudança de endereço não elimina a identidade indígena. A cidade não dissolve a ancestralidade. O indígena urbano continua submetido a formas específicas de vulnerabilidade, mas também conserva direitos decorrentes de sua identidade e de sua condição de cidadão.

 

3.3 A atuação comunitária na área da saúde

 

A formação como técnica de enfermagem adquiriu nova dimensão no Parque das Tribos.

 

Vanda passou a acompanhar moradores, orientar famílias e identificar pessoas com sintomas de Covid-19. Durante a crise sanitária, realizou visitas domiciliares e utilizou redes de comunicação para disseminar orientações preventivas. A Amazônia Real registrou sua atuação direta no acompanhamento dos moradores e na defesa da disponibilização de vacinas para a comunidade.

 

A atividade profissional e a liderança comunitária passaram a coexistir.

 

Vanda não atuava apenas como profissional de saúde. Atuava como integrante da comunidade. Essa condição lhe permitia reconhecer necessidades que dificilmente poderiam ser percebidas por uma estrutura externa de assistência.

 

3.4 A pandemia de Covid-19

 

A pandemia encontrou o Parque das Tribos em situação de vulnerabilidade.

 

A interrupção de atividades econômicas afetou famílias que dependiam da venda de artesanato, do trabalho na construção civil e de apresentações culturais. A perda de renda agravou as dificuldades de alimentação e assistência. Ao mesmo tempo, a circulação do vírus exigia medidas de prevenção que nem sempre estavam disponíveis.

 

Vanda passou a mobilizar recursos para responder às necessidades imediatas. O trabalho envolveu profissionais da saúde e voluntários. A comunidade organizou um espaço de atendimento com recursos obtidos por meio de doações.

 

A experiência foi descrita pela imprensa como uma das iniciativas comunitárias que buscaram enfrentar o colapso da assistência durante o período mais crítico da pandemia. 

 

3.5 A organização da unidade comunitária de saúde

 

A organização da unidade de atendimento representou um dos momentos de maior intensidade de sua atuação.

 

Com poucos recursos, Vanda e outros colaboradores buscaram equipamentos de proteção, medicamentos, produtos de higiene e cilindros de oxigênio. O atendimento não substituía a responsabilidade do poder público. Ao contrário, a mobilização comunitária evidenciava a insuficiência da assistência pública diante de uma emergência de grandes proporções.

 

A atuação de Vanda adquiriu, por isso, dupla dimensão: assistência direta e reivindicação política.

 

Cuidar das pessoas significava também denunciar as condições que tornavam necessário aquele cuidado improvisado.

 

3.6 A vacinação e a projeção nacional

 

Em 18 de janeiro de 2021, Vanda recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 aplicada no Amazonas. O acontecimento adquiriu grande repercussão.

 

A imagem da mulher indígena recebendo a vacina reuniu diferentes dimensões de sua trajetória: a profissional de saúde, a liderança comunitária e a representante de uma população especialmente vulnerável durante a pandemia.

 

A vacinação também ocorreu em meio a intensa disputa pública sobre a eficácia e a segurança das vacinas. A presença de Vanda adquiriu, por isso, significado simbólico. Seu corpo apareceu em público não apenas como corpo a ser protegido, mas como afirmação de uma identidade.

 

3.7 Racismo, misoginia e afirmação da identidade

 

A exposição pública trouxe também ataques.

Vanda foi alvo de manifestações racistas e misóginas após a vacinação. Um dos episódios envolveu o radialista Ronaldo Tiradentes, que a chamou de “indígena fake” e posteriormente se retratou.

 

A violência discursiva revelou uma contradição presente na exposição de mulheres indígenas no espaço público. A sociedade pode transformar sua imagem em símbolo quando ela corresponde a uma narrativa de celebração, mas reage de forma hostil quando essa mesma mulher reivindica autonomia, direitos e reconhecimento.

 

Vanda respondeu reafirmando sua identidade e sua trajetória.

 

O episódio acrescentou outra dimensão à sua atuação: a necessidade de combater não apenas a invisibilidade, mas também as formas de deslegitimação da presença indígena.

 

4. EDUCAÇÃO, CULTURA, MULHERES E JUSTIÇA CLIMÁTICA

 

4.1 Educação indígena e transmissão dos conhecimentos ancestrais

 

A experiência pessoal de Vanda com o apagamento cultural influenciou diretamente sua atuação educacional. A educação tornou-se instrumento de reconstrução. O trabalho desenvolvido no âmbito do Instituto Witoto busca aproximar crianças indígenas da língua, dos grafismos, dos conhecimentos tradicionais e de outras manifestações culturais. O projeto educacional vincula aprendizagem e pertencimento.

 

Essa perspectiva possui uma dimensão política. Uma criança que conhece a própria história possui mais instrumentos para reconhecer sua identidade e enfrentar processos de assimilação cultural. A educação, nesse sentido, não representa apenas preparação para o futuro profissional. Representa continuidade cultural.

 

4.2 Cultura, língua, grafismos e memória

 

A cultura Witoto ocupa lugar importante na atuação de Vanda. Língua, grafismos, cantos, espiritualidade, alimentação e conhecimentos relacionados ao território constituem formas de memória.

 

A preservação cultural não consiste em conservar elementos imutáveis. Toda cultura se transforma. O que se busca preservar é a capacidade de um povo participar da transformação de sua própria cultura sem que ela seja substituída pela imposição de uma cultura externa.

 

A experiência de Vanda demonstra essa tensão entre continuidade e mudança. Vive na cidade, utiliza instrumentos contemporâneos, atua na universidade e participa de espaços internacionais, sem que essas experiências eliminem sua identidade indígena.

 

4.3 Mulheres indígenas, trabalho e autonomia

 

A questão das mulheres ocupa lugar significativo em sua trajetória.

 

Durante a pandemia, Vanda participou da criação de um ateliê de costura envolvendo mulheres indígenas na produção de máscaras e na geração de renda.

 

A iniciativa possuía dupla função. De um lado, respondia a uma necessidade sanitária imediata. De outro, criava uma possibilidade de autonomia econômica. O trabalho feminino não aparecia apenas como atividade complementar à renda familiar. Era também instrumento de fortalecimento da autonomia.

 

Essa experiência dialoga com uma dimensão mais ampla de sua atuação: a defesa da participação das mulheres indígenas em espaços econômicos, educacionais e políticos.

 

4.4 O Instituto Witoto

 

A criação e o desenvolvimento do Instituto Witoto deram forma institucional a diversas iniciativas associadas à trajetória de Vanda. Educação, cultura, fortalecimento identitário, meio ambiente e direitos indígenas passaram a integrar uma mesma estrutura de atuação.

 

O Instituto permite que a experiência comunitária alcance outras pessoas e se organize de maneira continuada.

 

A instituição também expressa uma concepção de liderança que não depende exclusivamente de cargos públicos. É possível exercer poder social por meio da educação, da organização comunitária e da criação de instituições.

 

4.5 Amazônia, meio ambiente e justiça climática

 

A questão ambiental ocupa lugar crescente na atuação pública de Vanda. Sua presença em debates internacionais sobre clima amplia a discussão sobre a Amazônia para além de sua dimensão ecológica.

 

A floresta não pode ser tratada somente como estoque de recursos naturais ou como território destinado à conservação. Existem pessoas que vivem nela e dependem de sua continuidade. Essa perspectiva aproxima a defesa ambiental da defesa dos povos indígenas.

 

A justiça climática, em sua atuação, envolve também o reconhecimento dos conhecimentos e dos direitos daqueles que historicamente mantiveram relações de cuidado com a floresta.

 

4.6 A presença no debate internacional

 

A participação em eventos como a COP27, a COP28 e a Climate Week, em Nova York, levou a voz de Vanda para espaços internacionais de discussão climática. Sua presença representa uma mudança importante na forma de abordar a Amazônia.

 

Durante muito tempo, a região foi objeto de discursos produzidos fora dela. A presença indígena modifica essa perspectiva.

 

Vanda fala a partir de uma experiência concreta: a de quem vive na Amazônia, conhece as consequências da degradação ambiental e também enfrenta os problemas sociais que acompanham a precariedade dos serviços públicos.

 

O debate ambiental passa, então, a incluir identidade, saúde, território, educação e justiça social.

 

5 POLÍTICA, REPRESENTAÇÃO E DISPUTA PELO PODER

 

5.1 Da liderança comunitária à política institucional

 

A entrada de Vanda Witoto na política eleitoral não representa ruptura com sua trajetória anterior. Sua atuação comunitária possuía natureza política.

 

Organizar a saúde de uma comunidade, reivindicar serviços públicos, defender o reconhecimento de indígenas urbanos e lutar pela educação constituem formas de participação política.

 

A candidatura eleitoral acrescentou outra dimensão: a disputa direta por representação institucional. Essa passagem é significativa porque o Parlamento constitui um dos espaços nos quais são formuladas leis e políticas que afetam diretamente os povos indígenas.

 

A presença indígena nesses espaços significa participar da decisão sobre questões que durante séculos foram definidas sem participação proporcional dos povos diretamente envolvidos.

 

5.2 A candidatura a deputada federal em 2022

 

Em 2022, Vanda concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Amazonas.

Recebeu 25.545 votos, dos quais 17.623 foram registrados em Manaus, mas não foi eleita. A candidatura, entretanto, ampliou sua projeção política. Sua campanha apresentou uma agenda que articulava direitos indígenas, educação, justiça social, meio ambiente e participação das mulheres.

 

A experiência também revelou a distância existente entre expressividade política e acesso efetivo às instituições. Uma liderança pode possuir reconhecimento social e votação significativa sem necessariamente conquistar um mandato.

 

5.3 A candidatura à Câmara Municipal de Manaus em 2024

 

Em 2024, Vanda concorreu novamente, dessa vez à Câmara Municipal de Manaus, pela Rede Sustentabilidade. Sua candidatura foi registrada com o número 18123. Recebeu 8.374 votos e ficou na 23.ª posição entre os candidatos mais votados. Apesar da votação expressiva, não conquistou uma cadeira porque a federação formada por Rede e PSOL não alcançou o quociente eleitoral necessário.

 

A campanha tinha como uma de suas marcas a defesa da eleição da primeira mulher indígena para a Câmara Municipal de Manaus. Em suas propostas, apareciam temas como educação, saúde, moradia, saneamento, meio ambiente, autonomia feminina, economia criativa e valorização da cultura indígena.

 

O resultado eleitoral não encerrou sua participação política. Ao contrário, demonstrou a existência de uma base social capaz de sustentar sua presença no debate público.

 

5.4 A política como espaço de representação indígena

 

A trajetória eleitoral de Vanda está relacionada a uma questão maior: a representação dos povos indígenas nas instituições políticas.

 

Durante grande parte da história brasileira, as decisões sobre os povos originários foram tomadas por agentes externos às próprias comunidades. A presença indígena na política modifica essa relação. A liderança passa a falar não apenas sobre os povos indígenas, mas também a partir de uma experiência indígena concreta.

 

Essa distinção possui importância. Representar não significa substituir a comunidade. Significa criar condições para que demandas coletivas alcancem os espaços onde decisões públicas são tomadas.

 

5.5 A candidatura de 2026

 

Em março de 2026, Vanda filiou-se ao MDB e passou a estruturar uma nova candidatura à Câmara dos Deputados. A mudança partidária foi apresentada como estratégia eleitoral para viabilizar sua disputa por uma vaga no Congresso Nacional.

 

A nova candidatura demonstra a continuidade de sua trajetória política. Depois de duas experiências eleitorais sem mandato, Vanda permanece na disputa institucional.

 

Sua presença na política não se limita ao resultado de uma eleição. A candidatura representa a continuidade de um projeto de participação indígena nos espaços de decisão pública.

 

5.6 Ancestralidade, identidade e poder político

 

A relação entre ancestralidade e poder constitui o eixo interpretativo da trajetória de Vanda Witoto. Sua ancestralidade não aparece como elemento meramente simbólico, mas orienta escolhas concretas. Está presente na educação das crianças, na valorização da língua, na defesa dos conhecimentos tradicionais, na proteção da floresta e na reivindicação de direitos.

 

O poder, por sua vez, não se reduz ao exercício de um cargo. Também está na capacidade de uma comunidade organizar-se, produzir conhecimento, preservar sua memória e reivindicar reconhecimento.

 

A trajetória de Vanda revela justamente essa passagem. A identidade, inicialmente marcada por um conhecimento incompleto de suas próprias raízes, transforma-se em consciência; a consciência converte-se em ação; a ação alcança a organização comunitária; e a organização comunitária encontra, posteriormente, a arena institucional da política.

 

Conclusão

 

A trajetória de Vanda Witoto reúne experiências que, tomadas isoladamente, poderiam parecer pertencentes a universos distintos. A infância no Alto Solimões, a mudança para Manaus, o trabalho durante a adolescência, a formação como técnica de enfermagem, o ingresso na universidade, a descoberta do nome indígena, a reconstrução da identidade, a atuação no Parque das Tribos, a resposta comunitária à pandemia, a defesa das mulheres, a educação indígena, o debate climático e a participação eleitoral integram, entretanto, um mesmo percurso.

 

O elemento que articula essas experiências é a identidade. Vanda não recebeu sua identidade indígena como uma herança plenamente conhecida desde a infância. Precisou reencontrá-la. O nome Derequine, descoberto na idade adulta, tornou-se parte de um processo mais amplo de aproximação com a história e os conhecimentos do povo Witoto.

 

Esse reencontro não permaneceu no âmbito pessoal. A experiência do apagamento cultural contribuiu para sua dedicação à educação e à transmissão de conhecimentos ancestrais. A experiência profissional na área da saúde encontrou expressão no cuidado comunitário. A vivência no Parque das Tribos transformou a questão indígena urbana em uma pauta permanente. A pandemia ampliou sua visibilidade, mas também tornou pública uma atuação que já existia.

 

Sua presença na política institucional constitui outro capítulo desse percurso. As candidaturas de 2022 e 2024 não resultaram em mandato eletivo, mas ampliaram sua participação no debate público e demonstraram a existência de uma base eleitoral significativa. Em 2026, sua nova candidatura à Câmara dos Deputados dá continuidade a essa trajetória.

 

A biografia de Vanda Witoto permanece aberta. Não se trata de uma história encerrada, mas de uma trajetória em curso, cuja compreensão exige atenção às transformações pessoais e coletivas que a acompanham.

 

Ancestralidade e poder, nesse contexto, não representam conceitos separados. A ancestralidade oferece a referência a partir da qual a identidade se reconhece; o poder corresponde à capacidade de essa identidade ocupar espaços de existência, decisão e representação.

 

A trajetória de Vanda Witoto situa-se justamente nesse encontro: entre aquilo que uma mulher recebeu de seus antepassados, aquilo que precisou recuperar e aquilo que decidiu construir para as gerações que virão.

 

Referências

 

AMAZÔNIA REAL. Vanda Ortega Witoto: o protagonismo da mulher indígena da Amazônia. Manaus, 11 abr. 2022. Amazônia Real⁠.

 

FRANÇA, Elvira Eliza. Vanda Ortega Witoto: o protagonismo da mulher indígena da Amazônia. Amazônia Real, 11 abr. 2022. Obind.

 

REZENDE, Marília Gabriela Gondim. Vanda: do Alto Solimões para o mundo. Rio de Janeiro: Sabre Consultoria, 2021. A obra integra a segunda edição do projeto Biografias Colaborativas. Portal dos Livreiros +1

 

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS. Pesquisa acadêmica sobre a trajetória de Vanda Witoto e sua reconstrução identitária. Manaus: UEA. Repositório UEA.

 

WITOTO, Vanda. Instituto Witoto. Informações biográficas e institucionais sobre trajetória, identidade e atuação. Instituto Witoto⁠.

 

WITOTO, Vanda. Propostas. Plataforma de campanha eleitoral. Propostas de Vanda Witoto⁠.

 

WITOTO, Vanda. Entrevistas e depoimentos públicos sobre identidade indígena, educação, saúde, território e participação política.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 21/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Apostila - Direito dos contratos
Apostila - Lei de Falência e Recuperação de E...
Apostila - Direito do Trabalho - II
MOTA, Sílvia et al. Doenças pulmonares: uma v...
MOTA, Sílvia et al. Festa Surpresa
MOTA, Sílvia et al. Antologia de Poetas Brasi...
MOTA, Sílvia et al. Biodireito e Bioética
MOTA, Sílvia et al. Poetrix 4 - Terra
MOTA, Sílvia et al. Mãos que falam - antologi...
MOTA, Sílvia et al. Show de Talentos em Prosa...
MOTA, Sílvia. Apostilas jurídicas diversas
MOTA, Sílvia. Metodologia Jurídica II - Apost...
MOTA, Sílvia. Trabalhos acadêmicos: metodolog...
https://www.instagram.com/belasartesbelas_silviamota