Laura Cardoso morreu em São Paulo, na noite de 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, e, segundo a família, por causas naturais.
Nascida em 13 de setembro de 1927, iniciou a vida artística aos 15 anos, no rádio, em 1942. As radionovelas marcaram o primeiro capítulo de uma existência dedicada à interpretação. Com o surgimento da televisão brasileira, integrou o elenco da TV Tupi e participou dos primeiros tempos de uma linguagem que ainda buscava sua forma e identidade no país.
A experiência no rádio e na televisão alcançou também o teatro e o cinema, em uma carreira que se estendeu por mais de oito décadas. Na Rede Globo, onde estreou em Brilhante, em 1981, consolidou uma trajetória marcada por personagens de grande repercussão.
Entre os trabalhos mais lembrados estão Isaura, de Mulheres de Areia, e Dona Guiomar, de A Viagem. Vieram depois papéis em Caminho das Índias, Gabriela, Chocolate com Pimenta, Avenida Brasil e A Dona do Pedaço. Nesta última, em 2019, ocorreu sua despedida das novelas.
A longevidade profissional representa apenas uma parte de sua importância. Sua singularidade reside também na capacidade de atravessar profundas transformações da cultura brasileira sem perder a força de sua presença artística. Poucos intérpretes alcançam tamanha permanência e conservam, ao longo de tantas décadas, o reconhecimento do público.
A idade jamais determinou seu afastamento da cena. Em 2025, aos 97 anos, participou do curta-metragem Dona Rosinha e recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. A homenagem adquiriu especial significado diante de uma carreira que atravessou diferentes fases da dramaturgia brasileira.
Para Laura Cardoso, profissão e existência mantiveram estreita relação. A aposentadoria nunca ocupou lugar em seus planos. O trabalho artístico permaneceu como parte essencial de sua vida, sem que o avanço da idade impusesse limites à vocação.
Sua morte encerra um capítulo expressivo da dramaturgia brasileira. Desaparece uma das últimas grandes representantes de uma geração que assistiu ao nascimento da televisão e participou de sua consolidação como fenômeno cultural.
Permanecem os personagens, as vozes, os gestos e as inúmeras interpretações que atravessaram décadas. Permanece, sobretudo, o testemunho de uma vida consagrada à arte de representar. Mais de oito décadas após a estreia no rádio, o percurso chega ao fim; a obra, porém, permanece inscrita na memória cultural brasileira.
Laura Cardoso deixa duas filhas e um legado que ultrapassa os limites de uma carreira individual. Sua história integra a própria história da dramaturgia nacional. Talvez essa seja a forma mais duradoura de permanência de um artista: a ausência física não interrompe a presença de sua obra.
Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2026 — 7h45