El laberinto del fauno, 2006 é um dos filmes mais marcantes de Guillermo del Toro, ao combinar fantasia sombria, drama histórico e horror.
Ficha técnica
Direção e roteiro: Guillermo del Toro
Título original: El laberinto del fauno
Ano: 2006
País: Espanha/México
Gênero: fantasia sombria, drama, guerra e horror
Duração: aproximadamente 118 minutos
Protagonista: Ivana Baquero, como Ofelia
Sergi López: Capitão Vidal
Maribel Verdú: Mercedes
Doug Jones: Fauno e Homem Pálido
A história
A narrativa se passa na Espanha de 1944, durante o período posterior à Guerra Civil Espanhola, sob a ditadura franquista.
Ofelia é uma menina que vai viver com a mãe, Carmen, na casa do novo padrasto, o Capitão Vidal, um oficial franquista brutal e autoritário. Enquanto a realidade ao seu redor se torna cada vez mais violenta, Ofelia descobre um antigo labirinto no jardim. Ali encontra um fauno, que afirma que ela é, na verdade, uma princesa de um reino subterrâneo. Para retornar ao seu verdadeiro reino, deverá cumprir três tarefas.
O extraordinário do filme está justamente na dúvida: o mundo fantástico existe de fato ou é uma construção da imaginação de Ofelia para suportar uma realidade insuportável?
O ponto central do filme
O Labirinto do Fauno não é simplesmente uma história de fantasia. A fantasia funciona como contraponto à violência política e doméstica.
Há dois mundos que se refletem.
O mundo de Vidal: autoritário, militar, violento e obcecado pela obediência.
O mundo de Ofelia: imaginativo, mágico, mas também perigoso, no qual ela precisa fazer escolhas morais.
Nessa seara, existe uma ligação profunda: as escolhas de Ofelia no mundo fantástico refletem sua resistência ao autoritarismo no mundo real.
Um dos temas mais fortes do filme é justamente a diferença entre obedecer e escolher.
Vidal acredita na obediência como virtude absoluta. Ofelia descobre que, em determinadas circunstâncias, desobedecer pode ser um ato de coragem e humanidade. Por isso, vale olhar O Labirinto do Fauno menos como uma simples história de fantasia e mais como uma fábula sobre a violência, a desobediência e a necessidade de preservar a imaginação diante de um mundo brutal.
O labirinto
O labirinto é o espaço central da narrativa. Representa uma passagem entre dois mundos: o mundo histórico, marcado pela violência do franquismo, e o mundo mítico de Ofelia.
Mas há uma ambiguidade fundamental: não sabemos se o reino subterrâneo existe objetivamente ou se pertence à imaginação da menina.
Del Toro não resolve essa dúvida. E é justamente isso que torna o filme poderoso.
Se tudo for imaginação, Ofelia criou uma narrativa para suportar uma realidade insuportável. Se o mundo fantástico for real, existe uma dimensão invisível capaz de revelar uma verdade que o mundo dos adultos tenta destruir.
Ofelia e Vidal: duas formas de poder
Ofelia e o Capitão Vidal funcionam como opostos. Vidal acredita na obediência absoluta, não aceita questionamento, hesitação ou desvio e a sua autoridade depende do medo. Ofelia, ao contrário, aprende que existem momentos em que obedecer é moralmente errado, e, por isso, sua desobediência não é apenas infantil; possui uma dimensão ética.
O filme parece perguntar: quando obedecer deixa de ser uma virtude e passa a ser cumplicidade?
Essa pergunta atravessa toda a narrativa.
O Fauno
O Fauno é uma figura ambígua. Não é exatamente um personagem bondoso. É enigmático, ameaçador e, em alguns momentos, parece manipular Ofelia. Isso é importante porque Del Toro não constrói uma fantasia maniqueísta, na qual existe um mundo absolutamente bom contra um mundo absolutamente mau. Até o mundo mágico possui perigos.
O Fauno funciona como guia para a passagem de Ofelia da infância para uma consciência moral mais complexa. Oferece-lhe provas, mas também autonomia para decidir..
A primeira prova: o sapo
A gigantesca criatura que vive sob a árvore representa uma espécie de corrupção da natureza.
Ofelia precisa entrar na lama, enfrentar o nojo e retirar as pedras mágicas que estão no interior do sapo.
É uma descida.
As descidas são recorrentes no filme: Ofelia desce ao labirinto, entra em espaços subterrâneos e atravessa fronteiras entre aquilo que é visível e aquilo que está escondido.
A fantasia, portanto, não é um lugar de fuga confortável. Para alcançar alguma verdade, Ofelia precisa atravessar aquilo que é repulsivo e assustador.
A mandrágora
A mandrágora colocada sob a cama da mãe é uma das imagens mais perturbadoras do filme. Associada a antigas crenças populares, surge como uma criatura que parece possuir vida.
Para Ofelia, a mandrágora representa uma possibilidade de salvar a mãe. Carmen, entretanto, submetida à lógica racional dos adultos, rejeita aquela crença.
A cena evidencia o conflito entre dois modos de compreender a realidade: o mundo racional dos adultos e o mundo simbólico da criança. Del Toro, contudo, não simplesmente declara que um é verdadeiro e o outro, falso.
A mandrágora também participa da ambiguidade essencial do filme: aquilo que parece fantasia pode conter uma verdade emocional que a realidade objetiva não consegue alcançar.
O Homem Pálido
Talvez seja a criatura mais famosa do filme.
O Homem Pálido está sentado diante de uma enorme mesa coberta de alimentos. Ofelia recebe uma instrução explícita: não comer nada.
A menina, porém, desobedece e desperta a criatura. A cena pode ser lida como uma alegoria da fome de poder.
O Homem Pálido possui os olhos nas mãos. Não vê pelo rosto; precisa colocar as próprias mãos diante dos olhos para enxergar. A imagem estabelece uma associação inquietante entre visão e violência, entre aquilo que o poder enxerga e aquilo que suas mãos são capazes de fazer.
A aproximação com Vidal é evidente. Ambos representam formas de poder que se alimentam do medo, da violência e da submissão.
O Homem Pálido torna-se, assim, uma espécie de imagem monstruosa do poder autoritário.
A mesa
Há ainda um detalhe extraordinário. Enquanto Ofelia está diante da mesa do Homem Pálido, existe abundância de comida, mas aquela abundância pertence à criatura. No mundo real, entretanto, a Espanha está marcada pela pobreza e pela escassez.
A comida passa, então, a adquirir significado político. Quem controla o alimento controla também a sobrevivência.
O banquete do monstro pode ser lido como uma imagem da riqueza concentrada enquanto outros sofrem.
Mercedes
Mercedes é uma das personagens mais importantes porque representa a resistência no mundo real. Aparentemente, obedece a Vidal. Serve, cozinha e permanece silenciosa. Mas essa submissão é estratégica. Por trás dela existe uma mulher que ajuda os rebeldes.
Mercedes demonstra que nem toda obediência aparente significa submissão interior. E isso estabelece um paralelo interessante com Ofelia. As duas mulheres — uma criança e uma adulta — encontram maneiras diferentes de resistir ao poder.
O relógio de Vidal
O relógio é obsessivamente importante para Vidal. O homem se preocupa com o tempo, com a memória do pai e com a ideia de continuidade.
Vidal quer controlar a própria história. Depois de ser mortalmente ferido, exige que seu filho saiba a hora exata de sua morte. Essa obsessão possui uma dimensão quase genealógica: Vidal deseja transformar sua própria violência em legado. Ofelia, ao contrário, constrói uma memória diferente. Não perpetua o poder do padrasto.
O final
E chegamos à parte mais bonita e dolorosa.
Ofelia é descoberta por Vidal quando leva o irmão para o labirinto. O Capitão exige que lhe entregue o bebê, mas a menina se recusa.
Essa é provavelmente a decisão moral mais importante de todo o filme. Ofelia finalmente compreende que não basta obedecer a uma autoridade. Nem mesmo o Fauno pode substituir sua própria consciência. O que importa é decidir segundo aquilo que considera certo.
Ofelia não sacrifica o irmão.
Vidal atira nela.
Ofelia morre.
Mas, realmente morreu?
É aqui que Del Toro deixa a porta aberta. Depois da morte de Ofelia, vemos o reino subterrâneo. A menina aparece diante do rei e da rainha.
Segundo a narrativa fantástica, Ofelia teria cumprido sua última prova: recusou-se a derramar o sangue inocente do irmão e, ao fazê-lo, demonstrou que conservava sua própria integridade moral.
Se esse reino é real, Ofelia realmente era uma princesa que retornou ao seu mundo. Se tudo é imaginação, podemos interpretar aquele momento como a última construção da menina diante da morte. Mas, existe uma terceira possibilidade, talvez mais interessante: as duas coisas podem ser verdadeiras simultaneamente. A fantasia não precisa ser fisicamente comprovável para ser verdadeira em sentido simbólico.
O sentido da última escolha
Ofelia finalmente realiza aquilo que Vidal jamais consegue fazer: renuncia ao poder para preservar o outro.
Vidal vive para controlar. Ofelia morre porque se recusa a controlar o destino do irmão pela violência. Por isso, o filme estabelece uma oposição muito forte: Vidal quer deixar um legado de poder. Ofelia deixa um legado de resistência.
Talvez seja esse o verdadeiro significado do labirinto. Não é apenas o lugar onde Ofelia procura uma saída. O labirinto é o próprio mundo. E, dentro dele, cada personagem precisa escolher quem será.
No fim, Ofelia encontra uma saída que Vidal jamais encontrou: a liberdade de desobedecer.
Rio de Janeiro
Texto sem data.