Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

Diferença entre ouvir e escutar

 

Há uma distinção fundamental entre o ato sensorial de captar sons e a prática consciente de lhes atribuir atenção e sentido. Ouvir é, em grande medida, uma capacidade perceptiva: o som alcança os ouvidos sem exigir, necessariamente, a participação ativa da consciência. Escutar, por contraste, pressupõe uma postura deliberada de atenção, abertura e disposição para compreender aquilo que se apresenta ao ouvido.

 

A verdadeira escuta envolve uma dimensão de interioridade. Não se limita à recepção do som, mas convida o indivíduo a permanecer diante do que é dito, a perceber não apenas as palavras, mas também seus sentidos, suas nuances e aquilo que nelas pode ultrapassar a própria linguagem. Dessa forma, a experiência sonora deixa de ser mero acontecimento físico e transforma-se em exercício intencional de compreensão, reflexão e conexão.

 

A diferença entre ouvir e escutar alcança, portanto, uma dimensão filosófica substantiva. Ouvir corresponde à percepção do som; escutar implica uma relação consciente com aquilo que se ouve. Trata-se de uma operação que pode assumir caráter ético e hermenêutico, pois exige presença, atenção e disposição para interpretar. Escutar significa permitir que a palavra do outro alcance não apenas os sentidos, mas também a interioridade daquele que a recebe.

 

A escuta configura um ato dialógico e formador do sujeito, e não mera recepção passiva. Por meio da escuta, o som pode transformar-se em sentido: o sujeito acolhe, processa e integra aquilo que ouve ao tecido de sua experiência, convertendo a percepção em compreensão e, muitas vezes, em empatia.

 

Escutar também significa expor-se à alteridade do outro e assumir, diante de sua palavra, uma posição de responsabilidade e humildade. Significa reconhecer que aquilo que o outro diz não constitui apenas informação a ser recebida, mas uma experiência capaz de interpelar, deslocar e até transformar aquele que escuta. A escuta verdadeira pressupõe, portanto, a possibilidade de ser afetado pelo que vem de fora de si.

 

A escuta ultrapassa, desse modo, a superfície física da percepção e alcança uma dimensão ética e relacional. Instaura um espaço de encontro entre quem fala e quem escuta, no qual a palavra deixa de ser apenas som e passa a adquirir presença, significado e ressonância interior. Nesse espaço, não se transforma apenas aquilo que chega aos ouvidos: transforma-se também aquele que se dispõe verdadeiramente a escutar.

 

Rio de Janeiro.

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Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 15/08/2026
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