Poucos conceitos gozam de tamanho prestígio quanto a meritocracia, que seduz pela aparente simplicidade: cada indivíduo alcançaria, em última análise, a exata medida de seu esforço. Trata-se de uma narrativa elegante, quase reconfortante, porque oferece à ordem social uma aparência de justiça.
O mérito, entretanto, não se confunde com a meritocracia. O primeiro é uma virtude; a segunda, quando erigida à condição de princípio absoluto, converte-se em ideologia. John Rawls advertiu que ninguém escolhe o próprio ponto de partida. Ninguém decide a família em que nasce, a educação que recebe na infância, o ambiente em que se desenvolve, tampouco os talentos naturais que possui. Essas contingências, moralmente arbitrárias, influenciam profundamente o percurso de cada existência.
É precisamente aí que reside o equívoco. O mérito merece reconhecimento, mas somente depois de consideradas as circunstâncias que antecedem a competição. Ignorar o ponto de partida é transformar privilégios em virtudes e dificuldades em defeitos morais. A linha de chegada jamais poderá ser o único critério de justiça quando os corredores não partiram do mesmo lugar.
Talvez a verdadeira sabedoria consista em compreender que o mérito dignifica o esforço, mas somente a justiça é capaz de conferir legitimidade à disputa. Afinal, nenhuma corrida é verdadeiramente justa quando alguns largam muitos passos à frente dos demais.
(Texto escrito em 2005)