Exponho resenha da tese de doutorado em Medicina, defendida na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1845, intitulada "Aborto: acerca dos motivos que em geral levão as mulheres a provocal-o e meios de o prevenir", de autoria de João Gomes da Cunha.
Referência:
REIS, João Gomes dos. Dissertação medico-legal sobre o aborto precedida de algumas considerações acerca dos motivos que em geral levão as mulheres a provocal-o e meios de o prevenir. Nitheroy: Typ. Commercial de E. C. dos Santos, 1845. Disponível em: Biblioteca Digital de Obras Raras da UFRJ: http://bdor.sibi.ufrj.br/handle/doc/779. Acesso em: 7 ago. 2026.
Resumo da obra
A tese procura explicar, sob a ótica médica, moral, jurídica e social do século XIX, as razões que levariam mulheres a provocar o aborto e propõe medidas para preveni-lo.
O autor sustenta que o aborto decorre de um conjunto de fatores, entre os quais destaca:
📍a miséria e a pobreza;
📍a falta de instituições para acolher crianças abandonadas;
📍a escravidão, que levava muitas mulheres escravizadas a evitar que seus filhos nascessem para o cativeiro;
📍a violência e os maus-tratos praticados por maridos;
📍a sedução e o abandono de mulheres solteiras;
📍o medo da desonra social e familiar decorrente de uma gravidez fora do casamento;
📍a ausência de educação moral e religiosa.
Como formas de prevenção, o autor propõe:
📍educação moral e religiosa desde a infância;
📍fortalecimento do casamento e da família;
📍punições mais severas aos sedutores e aos responsáveis pela prática do aborto;
📍criação de mais casas de expostos (instituições destinadas a receber crianças abandonadas);
📍maior controle sobre a venda de substâncias consideradas abortivas.
Na segunda parte, a obra trata dos aspectos médico-legais do aborto, definindo-o, segundo a medicina legal da época, como o parto prematuramente provocado por ação humana. O autor descreve os procedimentos periciais destinados a verificar:
📍se houve tentativa de aborto;
📍se o aborto realmente ocorreu;
📍se foi provocado intencionalmente.
Apresenta métodos de exame do feto, da placenta e da mulher e discute critérios anatômicos e periciais utilizados pela medicina legal do século XIX para estimar a idade fetal e identificar sinais de aborto provocado.
Em síntese, trata-se de uma obra representativa do pensamento médico e jurídico do Brasil Imperial, combinando conhecimentos de obstetrícia, medicina legal, direito penal e moral cristã para analisar o aborto e propor políticas de prevenção.
Análise crítica
A tese de João Gomes da Cunha representa um valioso documento para a compreensão da formação do pensamento médico-jurídico brasileiro durante o Império. Mais do que um estudo sobre o aborto, a obra evidencia a estreita relação existente, em meados do século XIX, entre medicina, direito, religião e moral pública, revelando como esses campos do conhecimento atuavam conjuntamente na construção de normas de controle social.
Sob a perspectiva jurídica, observa-se que o autor procura justificar o fortalecimento da repressão penal como instrumento de proteção da vida intrauterina. Sua argumentação dialoga diretamente com o Código Criminal do Império, defendendo a ampliação da responsabilização dos envolvidos na prática do aborto e propondo alterações legislativas que alcançassem também a gestante. Tal posicionamento demonstra uma concepção típica do período, em que o Direito Penal era compreendido como mecanismo privilegiado de preservação da ordem moral e da estabilidade social. Entretanto, a própria tese revela uma tensão interna: ao mesmo tempo em que propõe o endurecimento das sanções, reconhece que a criminalidade decorre de fatores estruturais, como a pobreza, a exclusão social, a escravidão, o abandono e a violência doméstica. Sob a ótica jurídica contemporânea, essa contradição evidencia os limites da resposta exclusivamente penal diante de problemas de natureza eminentemente social.
Historicamente, a obra constitui um testemunho privilegiado da sociedade brasileira oitocentista. O autor registra aspectos centrais da realidade nacional, como a permanência da escravidão, a desigualdade econômica, a precariedade das políticas assistenciais e a forte influência da moral cristã sobre a elaboração das normas jurídicas. Merece destaque a percepção de que mulheres escravizadas recorriam ao aborto para impedir que seus filhos fossem submetidos ao regime de cativeiro, bem como a referência ao abandono de mulheres seduzidas, à ausência de instituições públicas de acolhimento e às dificuldades enfrentadas pelas gestantes pobres. Esses elementos conferem à tese relevante valor historiográfico, pois permitem compreender o contexto social que cercava a criminalização do aborto no Brasil Imperial.
Sob o enfoque sociológico, a obra revela uma sociedade profundamente marcada por relações de poder, desigualdades de gênero e mecanismos de estigmatização feminina. Embora o autor demonstre sensibilidade ao reconhecer que muitas mulheres eram levadas ao aborto por circunstâncias de sofrimento, vulnerabilidade e exclusão, sua interpretação permanece condicionada pelos valores morais de sua época. A mulher aparece predominantemente como objeto da tutela estatal, familiar e religiosa, sendo sua autonomia praticamente desconsiderada. A honra feminina surge como valor jurídico e social superior à própria liberdade de autodeterminação, refletindo uma estrutura patriarcal na qual o comportamento das mulheres era rigidamente controlado por normas morais e jurídicas.
De forma paradoxal, é justamente essa limitação que amplia a importância histórica da tese. Ao reproduzir os valores predominantes do século XIX, o texto permite compreender como o discurso científico foi utilizado para legitimar determinadas concepções jurídicas e sociais acerca da maternidade, da sexualidade e da família. A medicina legal deixa de exercer apenas uma função técnica e passa a atuar como instrumento de fundamentação do Direito e de legitimação das políticas de controle social.
Assim, a principal contribuição contemporânea da obra não reside em suas conclusões normativas, mas em seu expressivo valor histórico e documental. Sua leitura evidencia como as categorias jurídicas são construções históricas influenciadas pelos conhecimentos científicos, pelos valores morais e pelas condições sociais de cada época. Nesse sentido, a tese constitui importante fonte para a história do Direito, da medicina legal e das políticas públicas brasileiras e permite compreender a evolução das concepções sobre o aborto. Demonstra também que o tratamento jurídico desse fenômeno sempre refletiu as transformações políticas, culturais e sociais da sociedade brasileira.
Este texto possui um enfoque interdisciplinar, que articula Direito, História e Sociologia sem perder o rigor acadêmico, e dialoga diretamente com o conteúdo da tese.