Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
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Textos

Homossexualidade: os termos gregos do Novo Testamento e os processos históricos de tradução e interpretação

 

Resumo

O presente artigo analisa os termos gregos porneia, malakoi e arsenokoitai no contexto do Novo Testamento, examinando seus significados linguísticos, históricos e hermenêuticos e as repercussões decorrentes de suas traduções para as línguas modernas. A pesquisa adota abordagem qualitativa, mediante revisão bibliográfica e análise histórico-linguística, dialogando com autores representativos da filologia bíblica, da hermenêutica e da história do cristianismo primitivo. Demonstra-se que esses vocábulos pertencem a campos semânticos historicamente determinados e que sua tradução envolve escolhas interpretativas condicionadas pelo contexto cultural dos tradutores. Conclui-se que a aproximação direta entre tais termos e a categoria contemporânea de homossexualidade não decorre de equivalência linguística imediata, mas de processos históricos de interpretação que influenciaram discursos religiosos e sociais, cuja utilização no debate jurídico exige rigor metodológico e atenção aos princípios constitucionais da dignidade humana, da igualdade e da não discriminação.

 

Palavras-chave: Hermenêutica bíblica; Tradução; Grego koiné; Homossexualidade; Direitos fundamentais.

 

Introdução

 

A interpretação de textos antigos exige que a linguagem seja compreendida em seu contexto histórico, cultural e linguístico. Esse pressuposto assume especial importância no estudo do Novo Testamento, cujos escritos foram produzidos em grego koiné e posteriormente traduzidos para idiomas e culturas profundamente distintos daqueles em que surgiram.

 

Entre os vocábulos mais debatidos encontram-se porneia, malakoi e arsenokoitai, frequentemente associados, nas traduções modernas, às discussões sobre homossexualidade. Entretanto, a relação entre esses termos e a categoria contemporânea de orientação sexual permanece objeto de intenso debate acadêmico, sobretudo em razão das dificuldades semânticas, da escassez de ocorrências de alguns desses vocábulos e da influência exercida pelas tradições interpretativas.

 

O problema de pesquisa consiste em verificar em que medida as traduções e interpretações desses termos refletem seus possíveis significados no contexto do cristianismo primitivo ou incorporam categorias desenvolvidas em períodos históricos posteriores. Para tanto, adota-se pesquisa bibliográfica, com abordagem qualitativa, fundamentada na análise histórico-linguística, na hermenêutica bíblica e na reflexão jurídica acerca dos efeitos sociais das interpretações religiosas.

 

Parte-se da premissa de que a tradução não representa mera substituição vocabular, mas atividade interpretativa capaz de influenciar a compreensão de textos dotados de elevada autoridade religiosa. Nessa perspectiva, o artigo examina o contexto linguístico do Novo Testamento, analisa os significados historicamente atribuídos aos termos porneia, malakoi e arsenokoitai e investiga de que modo suas traduções contribuíram para a construção de sentidos posteriormente incorporados aos discursos sociais e jurídicos.

 

1 O contexto linguístico do Novo Testamento e a historicidade dos sentidos

 

Os escritos do Novo Testamento foram redigidos em grego koiné, variedade linguística difundida no Mediterrâneo oriental durante os períodos helenístico e romano. Distinto do grego clássico, o koiné constituiu uma língua de comunicação ampla, marcada pelo contato entre diferentes tradições culturais e religiosas. Conforme observa Werner Georg Kümmel (1982), a compreensão desses textos pressupõe o conhecimento do ambiente histórico em que foram produzidos, caracterizado pela interação entre o judaísmo, a cultura helenística e o domínio romano.

 

Nesse contexto, o significado das palavras não pode ser reconstruído a partir das acepções adquiridas séculos depois. Os vocábulos possuem historicidade: seus sentidos variam conforme os usos sociais e os contextos em que são empregados.

 

James Barr (1961) adverte que um dos principais equívocos da exegese consiste em atribuir significado fixo às palavras, ignorando que o sentido decorre de seu emprego concreto no texto e na comunidade linguística.

 

Essa observação é particularmente relevante para o estudo da sexualidade. Conceitos como "orientação sexual" e "homossexualidade" pertencem à modernidade e não constituem categorias pelas quais as sociedades do mundo greco-romano organizavam suas relações sociais. Como demonstra Boswell (1980), tais sociedades avaliavam os comportamentos sexuais segundo critérios relacionados ao estatuto social, à masculinidade, à honra e às relações de poder, e não segundo identidades sexuais permanentes.

 

A tradução dos textos bíblicos, portanto, exige mais do que equivalência lexical. Nesse sentido, Konings (2014) aborda a interpretação e a tradução bíblica como processos que envolvem mediação histórica, cultural e linguística, destacando que a transmissão do texto bíblico para novas línguas e contextos não ocorre de forma neutra. Wegner (1998) também trata da relação entre texto original, contexto histórico e interpretação, ressaltando que a compreensão dos textos bíblicos exige considerar o processo de tradução e recepção. Sendo assim, ao escolher determinado vocábulo na língua de chegada, o tradutor interpreta o texto e aproxima realidades históricas distintas. Essa mediação pode incorporar valores próprios da época em que a tradução é realizada, produzindo deslocamentos semânticos capazes de influenciar a recepção posterior das Escrituras.

 

Sob a perspectiva jurídica, esse processo assume especial relevância. Interpretações religiosas podem repercutir na formação de valores sociais e, por consequência, nos debates acerca da igualdade, da liberdade religiosa e da proteção contra a discriminação. Sarlet (2019) fundamenta a centralidade da dignidade humana como princípio jurídico estruturante, permitindo relacionar valores sociais, convicções religiosas e limites constitucionais impostos pela proteção dos direitos fundamentais. 

 

Por essa razão, a análise dos termos porneia, malakoi e arsenokoitai deve considerar simultaneamente a historicidade da linguagem, os limites da tradução e a evolução das tradições hermenêuticas.

 

2 Porneia: campo semântico, tradução e interpretação

 

O termo porneia ocupa posição central nas discussões sobre sexualidade no Novo Testamento. Sua tradução, contudo, exige cautela, pois as expressões empregadas nas línguas modernas nem sempre correspondem ao campo semântico que o vocábulo possuía no contexto do cristianismo primitivo.

 

Derivada de pórnē (πόρνη), palavra originalmente associada à prostituição feminina, porneia passou a designar, no período helenístico, diferentes condutas consideradas incompatíveis com determinados padrões morais ou religiosos. Seu emprego no Novo Testamento reflete a influência conjunta da tradição judaica e do ambiente greco-romano, razão pela qual o termo não admite uma definição única e universal. (GINGRICH; DANKER, 2004; KONINGS, 2005).

 

Na Septuaginta, porneia traduz diversas expressões hebraicas relacionadas tanto a transgressões de natureza sexual quanto à infidelidade religiosa. Essa pluralidade de usos demonstra que seu significado depende do contexto em que a palavra é empregada, não podendo ser reduzido a uma categoria específica da sexualidade contemporânea (MORAES, 2010).

 

O estudioso Barr (1961) observa que o sentido de um vocábulo decorre de seu uso concreto e não de uma essência semântica permanente. Aplicado ao estudo de porneia, esse princípio impede que traduções modernas sejam tomadas como equivalentes exatos do texto grego. Expressões como "fornicação", "imoralidade sexual" ou "prostituição" representam aproximações interpretativas, condicionadas pelas possibilidades linguísticas e pelos valores culturais da época em que foram produzidas.

 

Assinala Garland (2003) que a ética sexual presente nas cartas paulinas resulta da interação entre tradições judaicas e o contexto social do mundo helenístico. Desse modo, a compreensão de porneia pressupõe a reconstrução do ambiente histórico em que o termo foi utilizado, evitando projeções anacrônicas sobre o texto bíblico.

 

Essa perspectiva revela que não há fundamento linguístico para identificar porneia, de forma automática, com a categoria moderna de homossexualidade. A associação entre ambas decorre de interpretações posteriores, desenvolvidas em contextos culturais distintos daquele em que o Novo Testamento foi redigido. A investigação filológica recomenda, portanto, que o termo seja compreendido a partir de seu horizonte histórico próprio, preservando a distinção entre o significado original e os sentidos construídos ao longo da tradição interpretativa.

 

3 Malakoi e arsenokoitai: análise linguística, histórica e hermenêutica

 

Os termos malakoi (μαλακοί) e arsenokoitai (ἀρσενοκοῖται), mencionados em 1 Coríntios 6:9-10, figuram entre as expressões mais discutidas da literatura neotestamentária. A raridade de seus usos e a ausência de consenso quanto ao seu significado contribuíram para interpretações divergentes, refletidas nas traduções bíblicas modernas.

 

O vocábulo malakoi significa, em sentido literal, "macios", "suaves" ou "delicados". Na literatura grega, era empregado para descrever objetos, tecidos ou características pessoais, adquirindo, em determinados contextos, conotações morais relacionadas à fraqueza, à falta de autocontrole ou à vida considerada excessivamente indulgente. A atribuição de um significado especificamente sexual ao termo não decorre de seu sentido lexical, mas de determinadas leituras desenvolvidas ao longo da tradição exegética. Nesse contexto, Martin (1995) é uma das referências acadêmicas mais importantes para a análise de malakoi em 1 Coríntios 6:9, especialmente quanto ao problema de atribuir ao termo um significado moderno diretamente relacionado à homossexualidade. Para completar a essência da investigação acadêmica, deve-se buscar o BDAG (DANKER, 2000), considerado uma das fontes lexicais mais autorizadas para o estudo do grego do Novo Testamento. Não é uma tradução da Bíblia nem uma obra teológica; é um instrumento filológico, ou seja, um dicionário especializado que analisa: o significado possível das palavras gregas; os seus diferentes usos no período helenístico; as ocorrências no Novo Testamento; e a evolução semântica dos termos.

 

Segundo Martin (1995), interpretar malakoi como referência direta a homens homossexuais pressupõe categorias de masculinidade e comportamento que não podem ser simplesmente equiparadas às concepções atuais de orientação sexual. A palavra deve ser compreendida no universo simbólico da sociedade greco-romana, marcado por relações de honra, poder e distinção social.

 

Ainda mais complexa é a interpretação de arsenokoitai. Trata-se de um vocábulo raro, geralmente compreendido como composição de arsēn (homem) e koitē (leito), cuja tradução literal poderia indicar "aquele que se deita com homem". Todavia, a estrutura etimológica não basta para determinar seu significado histórico. A escassez de ocorrências impede que se estabeleça, com segurança, o comportamento específico ao qual o termo se referia (GINGRICH; DANKER, 2004).

 

Essa dificuldade explica a diversidade de interpretações existentes na literatura especializada. Gagnon (2001) sustenta que arsenokoitai designa relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo em sentido amplo, refletindo a ética sexual presente na tradição bíblica. Em sentido diverso, Dale B. Martin e outros estudiosos argumentam que o termo pode referir-se a práticas marcadas por exploração, abuso ou desigualdade, sem corresponder necessariamente à noção contemporânea de relacionamento homoafetivo.

 

A divergência evidencia que a tradução desses vocábulos envolve opções hermenêuticas e não simples equivalências lexicais. A utilização de expressões modernas como "homossexuais" representa uma interpretação possível, mas não consensual, devendo ser analisada à luz das limitações filológicas impostas pelo próprio texto grego e pelo contexto histórico em que foi produzido.

 

4 Tradução bíblica, construção de sentidos e repercussões jurídicas

 

A tradução constitui etapa decisiva na transmissão dos textos bíblicos entre diferentes línguas e culturas. Longe de representar simples substituição vocabular, traduzir implica interpretar, selecionar equivalências possíveis e estabelecer aproximações entre universos históricos distintos. Em consequência, toda tradução participa da construção dos sentidos atribuídos ao texto e influencia sua recepção pelas comunidades leitoras.

 

Assinala Nida (1964) que a tradução bíblica deve buscar equivalência de sentido e não mera correspondência lexical. Essa tarefa exige considerar o contexto linguístico, cultural e comunicativo da língua de partida e da língua de chegada, reconhecendo que determinadas expressões não encontram equivalentes perfeitos em idiomas pertencentes a tradições históricas diversas.

 

Esse problema torna-se particularmente evidente na tradução de porneia, malakoi e arsenokoitai. As soluções adotadas ao longo da história refletem opções hermenêuticas influenciadas pelos valores morais e pelas concepções de sexualidade predominantes nas sociedades em que as traduções foram produzidas. Assim, expressões modernas empregadas para traduzir esses vocábulos não constituem reprodução necessária do significado original, mas interpretações elaboradas em contextos específicos.

 

Observa Martin (1995) que muitas leituras contemporâneas dos textos paulinos projetam categorias inexistentes no mundo antigo sobre escritos produzidos em realidade social diversa. Essa projeção favorece a impressão de que determinados conceitos modernos já estariam presentes no texto grego, quando, na verdade, resultam de sucessivas camadas de interpretação acumuladas ao longo da tradição cristã.

 

Adverte Barr (1961) que o significado das palavras decorre de seu uso contextual e não de supostas definições permanentes. Aplicado às traduções bíblicas, esse princípio evidencia que escolhas lexicais podem ampliar, restringir ou redirecionar os sentidos originalmente possíveis, especialmente quando o vocábulo traduzido apresenta elevado grau de indeterminação semântica.

 

A influência dessas traduções ultrapassa o campo da exegese bíblica. Em sociedades marcadas pela presença histórica do cristianismo, interpretações consolidadas passaram a integrar discursos morais, educacionais e jurídicos, contribuindo para a formação de percepções sociais acerca da sexualidade. A análise crítica desse percurso não questiona a liberdade de crença nem a autonomia das tradições religiosas, mas evidencia que determinadas leituras resultam de processos históricos de interpretação e não de equivalências linguísticas incontroversas.

 

Sob a perspectiva jurídica, essa constatação reforça a necessidade de distinguir entre o texto antigo, suas traduções e as interpretações posteriormente construídas. Em um Estado comprometido com a dignidade da pessoa humana, a igualdade e a não discriminação, a utilização de textos religiosos como fundamento de posições jurídicas deve observar os limites impostos pela historicidade da linguagem e pela pluralidade hermenêutica.

 

Conclusão

 

A análise dos termos porneia, malakoi e arsenokoitai demonstra que sua interpretação exige abordagem interdisciplinar, integrando linguística, história, hermenêutica e Direito. Os significados desses vocábulos não podem ser estabelecidos mediante correspondências imediatas com categorias contemporâneas, pois pertencem a contextos históricos e culturais distintos daqueles em que surgiram os atuais conceitos de orientação sexual e identidade.

 

A pesquisa evidenciou que a tradução bíblica constitui atividade essencialmente interpretativa. As escolhas realizadas pelos tradutores refletem possibilidades semânticas, tradições exegéticas e condicionamentos culturais próprios de cada época, circunstância que explica a diversidade de soluções encontradas para os mesmos termos ao longo da história.

 

Verificou-se, igualmente, que não há consenso acadêmico acerca do alcance semântico de malakoi e arsenokoitai, ao passo que porneia apresenta campo de significados suficientemente amplo para afastar leituras reducionistas. A associação direta desses vocábulos à categoria moderna de homossexualidade não decorre de equivalência linguística inequívoca, mas de processos históricos de tradução e interpretação que permanecem objeto de debate científico.

 

No plano jurídico, essa constatação recomenda especial cautela na utilização de textos religiosos para fundamentar discursos sobre direitos fundamentais. O respeito à liberdade religiosa é plenamente compatível com a investigação crítica dos processos linguísticos e hermenêuticos que moldaram a recepção das Escrituras ao longo dos séculos. A compreensão desses processos contribui para um debate público mais rigoroso, historicamente fundamentado e compatível com os princípios constitucionais da igualdade, da dignidade humana e da não discriminação.

 

Referências

 

BARR, James. The semantics of biblical language. Oxford: Oxford University Press, 1961.

 

BOSWELL, John. Christianity, social tolerance, and homosexuality: gay people in Western Europe from the beginning of the Christian era to the fourteenth century. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

 

DANKER, Frederick W. (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG). 3. ed. Chicago: University of Chicago Press, 2000.

 

GAGNON, Robert A. J. The Bible and homosexual practice: texts and hermeneutics. Nashville: Abingdon Press, 2001.

 

GARLAND, David E. 1 Corinthians. Grand Rapids: Baker Academic, 2003.

 

GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento Grego/Português. Tradução de Júlio P. T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 2004.

 

KONINGS, Johan. A palavra de Deus na vida e na missão da Igreja: introdução à leitura bíblica. São Paulo: Loyola, 2005.

 

KONINGS, Johan. A Bíblia nas suas origens e hoje: introdução geral à Sagrada Escritura. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.

 

MARTIN, Dale B. The Corinthian body. New Haven: Yale University Press, 1995.

 

MORAES, Reginaldo Pereira de. A Septuaginta: a Bíblia grega dos judeus. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.

 

NIDA, Eugene A. Toward a science of translating: with special reference to principles and procedures involved in Bible translating. L1964.: E. J. Brill, 1964.

 

SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2019.

 

WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 1998.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 06/08/2026
Alterado em 06/08/2026
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