GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Como trabalhar com "raça" em sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 93-107, jan./jun. 2003.
O autor discute como o conceito de raça deve ser compreendido e utilizado na pesquisa sociológica. Argumenta que "raça" não possui fundamento biológico, mas continua sendo uma categoria social relevante porque organiza identidades, relações de poder e desigualdades.
Os principais pontos são:
1— Distingue conceitos analíticos (criados pela teoria científica) de conceitos nativos (utilizados pelas pessoas em seu cotidiano). Para ele, o sentido de "raça" depende do contexto histórico e social em que é empregado.
2— Do ponto de vista biológico, a ciência moderna rejeita a existência de raças humanas. Entretanto, na sociologia, "raça" permanece importante porque representa uma construção social que influencia identidades, preconceitos e formas de classificação das pessoas.
3— O texto diferencia os conceitos de raça, cor, etnia, classe, nação e povo, mostrando que cada um possui função específica na análise sociológica e não deve ser confundido com os demais.
4— No Brasil, a classificação racial passou por transformações históricas. Durante a escravidão predominava a ideia de "raça"; posteriormente, a categoria cor tornou-se o principal modo de classificação social, especialmente com a construção da identidade nacional baseada na miscigenação.
5— O autor revisa a evolução da sociologia das relações raciais no Brasil, abordando as contribuições de Donald Pierson, dos estudos patrocinados pela UNESCO, de Florestan Fernandes e da chamada crítica ao mito da democracia racial, que evidenciou a persistência do preconceito e da discriminação racial.
6— A partir da década de 1970, o Movimento Negro Unificado e pesquisadores como Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silva reforçaram a compreensão de que as desigualdades entre brancos e negros decorrem também do racismo e da discriminação, e não apenas da herança da escravidão ou das diferenças de classe.
7— Por fim, Guimarães discute os desafios metodológicos das pesquisas sobre raça no Brasil. Defende que o pesquisador deve compreender a linguagem utilizada pelos entrevistados e adaptar suas perguntas ao contexto, pois categorias como "cor" e "raça" variam conforme o grupo social e o momento histórico.
Síntese: o autor conclui que, embora as raças humanas não existam como categorias biológicas, "raça" continua sendo uma categoria sociológica indispensável para compreender o racismo, as desigualdades e as formas pelas quais as pessoas constroem suas identidades na sociedade brasileira.