O vocábulo raça possui uma trajetória histórica complexa, marcada por diferentes significados ao longo do tempo. Inicialmente empregado para designar grupos humanos a partir de características físicas aparentes, o termo foi amplamente utilizado, sobretudo entre os séculos XVIII e XIX, para justificar teorias pseudocientíficas que hierarquizavam populações segundo critérios fenotípicos. Essas concepções serviram de fundamento ideológico para a expansão colonial europeia, a escravidão moderna, a segregação racial e diversas formas de discriminação institucionalizadas.
Os avanços da genética, da antropologia e da biologia evolutiva demonstraram, entretanto, que não existem raças humanas do ponto de vista biológico. As diferenças genéticas entre indivíduos da mesma população são frequentemente maiores do que aquelas observadas entre populações distintas. Em consequência, a comunidade científica passou a reconhecer que a espécie humana constitui uma única unidade biológica, sendo as diferenças físicas resultado de processos adaptativos e evolutivos, sem qualquer fundamento para estabelecer hierarquias naturais entre grupos humanos.
Todavia, a inexistência de raças biológicas não elimina a realidade social da raça. Nas ciências sociais, o conceito permanece indispensável porque as sociedades continuam atribuindo significados às diferenças físicas, especialmente à cor da pele, produzindo relações de poder, exclusão e privilégios. A raça, portanto, deve ser compreendida como uma categoria histórica e socialmente construída, cujos efeitos são concretos na organização da vida social.
Nesse sentido, Edward Telles (2003, p. 38) afirma: "[...] o uso do termo raça fortalece distinções sociais que não possuem qualquer valor biológico, mas a raça continua a ser imensamente importante nas interações sociológicas e, portanto, deve ser levada em conta nas análises sociológicas [e históricas]"
No Brasil, a compreensão da raça como construção social recebeu importantes contribuições de estudiosos dedicados às relações raciais. Kabengele Munanga sustenta que a raça constitui uma categoria social e política utilizada historicamente para legitimar relações de dominação e exclusão, razão pela qual sua análise permanece essencial para compreender o racismo contemporâneo. Para o autor, embora biologicamente inexistente, a raça produz consequências concretas nas oportunidades, na cidadania e na experiência cotidiana das pessoas.
Na mesma perspectiva, Antônio Sérgio Alfredo Guimarães observa que o conceito de raça continua sendo necessário para explicar as desigualdades raciais existentes na sociedade brasileira. Segundo o sociólogo, abandonar o termo significaria ignorar a maneira pela qual o racismo estrutura relações sociais, econômicas e políticas, invisibilizando os mecanismos de discriminação que afetam a população negra.
Também Clóvis Moura compreende a raça como categoria inseparável da formação histórica do Brasil. Em sua interpretação, o racismo não constitui simples preconceito individual, mas um instrumento histórico de exploração social, consolidado desde a escravidão e perpetuado nas estruturas econômicas e políticas do país. Para Moura, compreender a questão racial exige analisá-la juntamente com os processos de dominação e resistência desenvolvidos pela população negra ao longo da história.
Desse modo, o emprego do vocábulo "raça" nas pesquisas acadêmicas não representa a aceitação da existência de diferentes raças humanas, mas o reconhecimento de que as classificações sociais baseadas em características físicas continuam produzindo desigualdades, discriminações e diferentes formas de acesso aos direitos. Assim, a categoria permanece indispensável para a análise histórica, sociológica e jurídica das relações raciais, contribuindo para a compreensão crítica do racismo e para a construção de uma sociedade comprometida com a igualdade e a dignidade humana.
Referências
GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Classes, raças e democracia. São Paulo: Editora 34, 2002.
GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Como trabalhar com "raça" em sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 93-107, jan./jun. 2003.
MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1988.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 5. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
TELLES, Edward. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fundação Ford, 2003.