MONTEIRO, João Pedro. Sociologia, Antropologia e raça em Clóvis Moura . Lutas Sociais, [S. l.], v. 27, n. 50, p. 130–144, 2023. DOI: 10.23925/ls.v27i50.69813. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ls/article/view/69813.
O artigo “Sociologia, Antropologia e raça em Clóvis Moura”, de João Pedro Monteiro, examina a crítica de Clóvis Moura ao conceito de raça e demonstra como sua reflexão ultrapassa os limites da sociologia tradicional para questionar as bases epistemológicas da antropologia clássica. O autor sustenta que, para Moura, tanto a Sociologia quanto a Antropologia nasceram em contextos históricos específicos e carregam marcas das relações de poder que as produziram.
A principal tese do texto é que a Antropologia moderna foi profundamente influenciada pelo colonialismo. Nesse contexto, o conceito de raça deixou de ser apenas uma classificação e passou a funcionar como um instrumento ideológico destinado a justificar a expansão colonial, a escravidão e a dominação dos povos não europeus. Moura argumenta que a ideia de raça foi construída como uma categoria metafísica, sem fundamento sociológico consistente, cuja função era naturalizar desigualdades históricas.
Em contraposição, Clóvis Moura propõe uma perspectiva materialista e histórica. Para ele, as diferenças entre grupos humanos não podem ser compreendidas por características biológicas, mas pelas relações sociais, econômicas e políticas que estruturam cada sociedade. O racismo, portanto, não é um fenômeno cultural isolado nem um preconceito individual; constitui um mecanismo de dominação articulado ao desenvolvimento do capitalismo e à manutenção da exploração do trabalho.
O artigo também demonstra que Moura rompe com interpretações culturalistas predominantes na antropologia brasileira, que frequentemente privilegiavam a integração e a mestiçagem como elementos centrais da formação nacional. Em vez disso, enfatiza a resistência negra, os quilombos, as rebeliões escravas e outras formas de luta coletiva como motores da história brasileira. A população negra deixa de ser objeto de estudo e passa a ser compreendida como sujeito histórico capaz de transformar a realidade social.
Outro aspecto importante é a defesa de uma sociologia comprometida com a práxis. Moura entende que a produção científica não deve limitar-se à descrição da realidade, mas contribuir para sua transformação. O conhecimento sociológico deve revelar os mecanismos estruturais do racismo e oferecer instrumentos para a emancipação dos grupos historicamente oprimidos. Essa perspectiva aproxima sua obra do marxismo, sem reduzir a questão racial a um simples reflexo da luta de classes; ao contrário, demonstra como classe e raça se articulam na formação social brasileira.
Como contribuição ao pensamento social brasileiro, o artigo evidencia que Clóvis Moura antecipou debates contemporâneos sobre racismo estrutural, colonialidade do conhecimento e crítica às ciências sociais eurocêntricas. Sua obra permanece atual por demonstrar que o conceito de raça é uma construção histórica utilizada para organizar relações de poder, e que sua superação exige compreender as condições materiais que sustentam a desigualdade racial.
Texto sem data.