A morte de um jornalista não silencia apenas uma voz. Silencia um testemunho.
Em toda guerra, há duas disputas simultâneas: a que se trava com armas e a que se trava pela narrativa. Quem controla o relato pretende controlar a memória, e quem controla a memória pretende moldar a história. Por isso a morte de jornalistas carrega um peso que excede a perda humana, por si só irreparável. Morre, com cada repórter, uma janela aberta para o real.
Os dados recentes do Committee to Protect Journalists (CPJ) são estarrecedores: 2025 foi o ano mais letal já registrado para a imprensa, com 129 mortes no mundo, sendo cerca de dois terços atribuídas a ações israelenses, sobretudo contra jornalistas palestinos em Gaza.
A cifra isolada já fere. Mas há uma camada ainda mais sombria: quando jornalistas morrem em massa, não se destrói apenas o mensageiro; compromete-se a própria possibilidade de prova.
Nesse contexto, a guerra não mata somente corpos — tenta obscurecer a visão do mundo sobre o que ocorre. É como se a violência desejasse, além da morte, o apagamento. Sem alguém que registre, a dor corre o risco de tornar-se rumor; sem quem testemunhe, a barbárie busca refúgio na dúvida.
Por isso a morte de jornalistas atinge o próprio coração da vida pública. Não se trata apenas de uma tragédia do ofício, mas de um atentado contra a memória coletiva e contra o direito universal à verdade.
Rio de Janeiro, 30 de abril de 2026 — 8h57