Não chego pela estrada —
surjo de uma dobra
da noite enlouquecida,
onde a lua esquece
o próprio nome
e o vento carrega
perfumes antigos.
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Não chego em silêncio —
trago nos pulsos barulhentos
o rumor das encruzilhadas,
e nos olhos clandestinos
um fogo sem origem,
que é rosa e punhal,
veludo e tempestade.
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Reúno suspiros contrários
na mesma respiração
e conheço o preço
dos desejos não revelados,
que avassalam e oprimem
a natureza humana,
certa ou incerta.
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Sei a geometria erudita
dos segredos obscuros,
conheço par a par
os corredores ocultos
e os jardins floridos
que se escondem
da alma humana.
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Entre promessas partidas
e juramentos sem morada,
leio a escrita invisível
que o sofrimento derrama
nas paredes da existência,
em grafias sem repouso
de tempo nenhum.
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Diante da injustiça,
sou Deus e Satã —
ergo a voz guerreira
e me faço meretriz
que surpreende o medo
com lanternas vermelhas
na escuridão do destino.
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Nenhum trono me contém,
nenhuma muralha me detém —
há liberdade em meus passos,
mistério em cada silêncio,
e um vento antigo
que atravessa os nomes
sem fixar morada.
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Quando meu requebro passa,
as sombras mudam de lugar,
e a vida revela portas
antes invisíveis,
que abrem fendas lentas
no tecido do instante
sem aviso algum.
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Senhora dos caminhos cruzados,
guardo no riso atrevido
a memória do abismo
e cultivo a rosa impossível
que floresce abusada
onde o mundo jurava
não existir jardim.
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Rio de Janeiro, 27 de junho de 2026 — 16h15