Na Serra da Mantiqueira, havia um silêncio antigo, desses que não pertencem ao tempo dos homens. Subia das pedras, demorava-se entre as raízes e repousava sobre as copas mais altas — memória esquecida pela própria montanha.
Ali, entre bromélias e samambaias, vivia uma jaguatirica.
Não era apenas um corpo de caça. Havia nela uma espécie de atenção que se aproximava da consciência. Observava o mundo como quem escuta uma frase interrompida. À noite, hesitava diante de certas trilhas, como se reconhecesse nelas antigas decisões. Seus olhos variavam entre azuis esverdeados e verdes azulados, como se a própria luz os reescrevesse.
O caçador chegou sem anúncio.
Chamavam-no caçador, embora o trabalho mais parecesse um abandono de si mesmo do que uma profissão. Trazia armas gastas, nomes na lembrança, e uma sucessão de amores que o tempo não apagou. Subira a montanha por algo que não se nomeia: uma busca. Seus olhos dourados fitavam os caminhos da Serra, como se guardassem um segredo inacabado.
Numa madrugada sem cor, os dois se encontraram.
A jaguatirica não fugiu. O caçador não atirou. Entre eles, abriu-se um silêncio diferente, como se a montanha reconhecesse uma história antiga que não se contava.
Nos dias seguintes, o encontro se repetiu. Às vezes junto a um riacho, outras vezes numa clareira, ou entre sombras tão densas que a jaguatirica era quase invenção da neblina.
O caçador passou a falar, não como quem enlouquece, mas como quem descobre uma língua sem palavras:
— Não deveria existir algo tão belo assim — disse, ao olhar o animal que o observava sem medo.
Pela primeira vez, a jaguatirica não apenas olhou. Escutou.
A Serra mudou. As trilhas já não eram só caminhos. Os galhos, sinais de uma escrita oculta. E a presença da jaguatirica, antes só animal, tornou-se um pensamento que o caçador carregava.
Numa noite de lua estreita, o caçador ergueu a arma. Talvez por hábito. Talvez por medo. Talvez porque alguns destinos exigem um gesto antes de se revelarem.
A jaguatirica não recuou. Aproximou-se.
Os olhos dourados encontraram os olhos verdes azulados. E a névoa, então, fechou-se.
Ninguém sabe o que aconteceu naquela noite. Alguns dizem que o caçador desceu a montanha e nunca mais voltou. Outros juram que nunca houve caçador. Mas os mais velhos contam outra coisa: que, em certas manhãs frias da Mantiqueira, ainda aparecem pegadas humanas ao lado das pegadas de uma jaguatirica. E talvez sejam as mesmas pegadas, juntas, desaparecendo na névoa.
Talvez seja só uma lenda. Talvez não.
Rio de Janeiro, 10 de junho de 2026 — 19h23