Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

Caim matou Abel: a inveja entre irmãos

 

A história de Caim e Abel atravessou milênios porque a fraternidade abriga uma contradição silenciosa: da mesma fonte costumam nascer o afeto mais profundo e a comparação mais dolorosa.

 

A inveja raramente nasce da distância — necessita de proximidade e alimenta-se da semelhança. O bem recebido por outro passa a ser percebido como privação própria e a fortuna alheia assume a forma de uma perda imaginária.

 

A narrativa bíblica apresenta dois irmãos diante do mesmo altar, onde ambos oferecem o fruto do próprio trabalho. Entretanto, apenas a oferta de Abel recebe acolhimento. Uma diferença quase imperceptível, suficiente para alterar o destino de uma família.

 

O sofrimento de Caim nasce nesse instante. Não da prosperidade do irmão, nem de alguma vantagem material, mas da impressão de que o favor concedido a Abel representa uma recusa dirigida à própria pessoa. Diante da aceitação do irmão, passa a enxergar a própria insuficiência. O altar transforma-se em espelho.

 

Caim não deseja os rebanhos de Abel nem sua condição de pastor. Deseja o significado atribuído à sua oferta.

 

A tragédia humana começa quando uma diferença passa a ser interpretada como hierarquia. Nesses instantes, o olhar abandona a própria interioridade e passa a habitar a vida alheia. A comparação ganha força, o ressentimento encontra morada e a realidade começa a perder contornos.

 

A inveja produz um curioso engano: faz acreditar que o reconhecimento recebido por alguém representa uma perda pessoal, como se a dignidade fosse escassa, como se a estima obedecesse à lógica dos bens divisíveis, como se o brilho de uma existência dependesse da diminuição de outra.

 

Por esse motivo, o primeiro homicídio da tradição bíblica não nasce da disputa por riquezas ou poder. A tragédia germina numa esfera muito mais íntima. Antes da violência das mãos, ocorre uma deformação do olhar — Abel deixa de ser irmão e torna-se medida da própria falha.

 

Desde então, sempre que um ser humano transforma outro em medida exclusiva do próprio valor, Caim volta a caminhar pela Terra...

 

[Texto sem data]

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 08/06/2026
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