Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

Estupro na Bíblia: Diná e a gramática da violência

 

Em Gênesis 34, a história de Diná inscreve uma gramática antiga da violência, em que o corpo feminino, ao se deslocar, passa a integrar sistemas de decisão que o excedem.

 

Diná, filha de Jacó e Lia, sai para conhecer as mulheres da terra. Nesse deslocamento — breve, quase silencioso no texto — é vista por Siquém, filho de Hamor, líder daquela região, que a toma e a violenta. Depois do ato, passa a desejar casar-se com ela e pede a seu pai que providencie o acordo com a família de Jacó.

 

Hamor procura Jacó e propõe uma aliança entre os povos, sugerindo trocas, convivência e casamentos mútuos. Siquém aceita qualquer exigência para obter Diná. A violência inicial, porém, já havia sido comunicada aos irmãos dela, que reagem com indignação profunda.

 

Simeão e Levi arquitetam então uma resposta. Exigem que todos os homens da cidade sejam circuncidados como condição para a união. Hamor e Siquém convencem os habitantes a aceitar o rito. Enquanto se recuperam da circuncisão, os irmãos de Diná atacam a cidade, matam os homens — incluindo Hamor e Siquém —, resgatam Diná e tomam os bens do lugar. Depois do massacre, Jacó teme represálias dos povos vizinhos; os irmãos justificam a ação com uma pergunta que permanece sem fechamento: seria possível deixar a irmã tratada como prostituta?

 

A narrativa não oferece reconciliação. Permanece como um dos episódios mais duros do texto bíblico: violência inicial, tentativa de negociação, vingança coletiva e silêncio final sobre Diná, cuja voz não aparece.

 

Esse enredo antigo encontra ressonância em estruturas jurídicas posteriores nas quais a violência sexual foi, durante séculos, reorganizada sob a gramática da honra e da reparação social. Em diferentes contextos históricos — inclusive em legislações europeias até o século XX e em resquícios do próprio direito brasileiro — o casamento entre agressor e vítima pôde funcionar como forma de extinguir a punibilidade, não por desaparecimento do dano, mas por sua tradução em acordo. A violência era deslocada do campo do crime para o campo da reorganização familiar e social.

 

Entre o texto bíblico e essas formações jurídicas, persiste uma continuidade inquietante: a tendência de fazer do corpo feminino um ponto de negociação entre homens, famílias ou instituições. Ora pela vingança, ora pelo contrato, ora pela forma jurídica, a violência raramente permanece apenas como violência. É constantemente reinterpretada, como se o mundo precisasse reorganizá-la para suportar seu próprio excesso.

 

Assim, entre o antigo e o presente, permanece uma pergunta sem estabilidade: o que se perde quando a violência precisa ser traduzida para caber na linguagem da honra, da reparação ou da justiça?

 

[Texto sem data]

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 07/06/2026
Alterado em 07/06/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Apostila - Direito dos contratos
Apostila - Lei de Falência e Recuperação de E...
Apostila - Direito do Trabalho - II
MOTA, Sílvia et al. Doenças pulmonares: uma v...
MOTA, Sílvia et al. Festa Surpresa
MOTA, Sílvia et al. Antologia de Poetas Brasi...
MOTA, Sílvia et al. Biodireito e Bioética
MOTA, Sílvia et al. Poetrix 4 - Terra
MOTA, Sílvia et al. Mãos que falam - antologi...
MOTA, Sílvia et al. Show de Talentos em Prosa...
MOTA, Sílvia. Apostilas jurídicas diversas
MOTA, Sílvia. Metodologia Jurídica II - Apost...
MOTA, Sílvia. Trabalhos acadêmicos: metodolog...
https://www.instagram.com/belasartesbelas_silviamota