Desde a mais tenra idade, a postura contemplativa da minha mãe e a expressão circunspecta do meu pai nos momentos de transcendência ensinaram-me que a fé pertence ao reino do silêncio. Não o silêncio da ausência, mas o da escuta. Talvez por isso eu observe com estranheza certos fenômenos do nosso tempo.
Nunca se falou tanto em religião. Nunca se exibiram tantas Bíblias. Nunca se misturaram com tanta desenvoltura oração, política, dinheiro, ressentimento e poder.
O sagrado transformou-se em espetáculo. Contudo, a fé não nasceu para os palcos.
As grandes tradições espirituais surgiram de uma inquietação comum: a tentativa de compreender a existência, enfrentar o sofrimento e superar os limites do próprio ego.
A fé autêntica não elimina a imperfeição humana, mas deveria torná-la mais consciente de si mesma. Por isso, causa perplexidade vê-la associada ao ódio, à intolerância, à corrupção ou à desumanização do outro.
Talvez porque a propaganda e a fé pertençam a universos distintos. A propaganda procura adesões; a fé procura transformação. Uma fala para a multidão; a outra começa na consciência.
Entre a mente e o megafone, continuo a escolher o silêncio.
Afinal, nem todo discurso sobre a fé nasce da fé.
[Texto sem data]