Outro dia, ao escrever uma resenha sobre o filme 15 février 1839, que foi publicada no site Recanto das Letras, fui assaltada por uma incômoda e inevitável reflexão: o abismo que separa certas formas históricas de patriotismo de algumas manifestações contemporâneas que se apresentam sob o mesmo nome.
Enquanto os homens retratados por Pierre Falardeau marchavam em direção ao cadafalso movidos por ideais estritamente coletivos, aceitando a corda no pescoço em nome de uma soberania popular que talvez jamais chegassem a contemplar, parte do patriotismo atual parece operar segundo uma lógica inversa. O amor à pátria converte-se, não raro, em um salvo-conduto para a defesa de interesses particulares, de bolhas ideológicas e de conveniências individuais, ainda que o preço seja o enfraquecimento do próprio tecido social que se afirma proteger.
A dignidade sombria que emana da cela de Chevalier de Lorimier, nas horas que antecedem o dia 15 de fevereiro de 1839, reside no fato de que aqueles rebeldes do Baixo Canadá conheciam exatamente o peso de suas escolhas. Não havia o conforto do anonimato das redes sociais, nem a expectativa de absolvições futuras ou acomodações oportunas. Havia apenas a consciência de que a liberdade política de um povo poderia exigir o sacrifício da própria vida. Esse é o ponto que torna tão perturbadora qualquer comparação com determinadas formas de patriotismo contemporâneo: a distância entre quem assume integralmente as consequências dos próprios atos e quem reivindica a legitimidade da rebeldia, mas rejeita seus custos.
Nas telas, Falardeau mostra homens que se recusam a pedir clemência porque a capitulação pessoal significaria a morte moral da causa que defendiam. No Brasil recente, o que se observou após manifestações que culminaram na depredação das instituições republicanas foi, em muitos casos, uma intensa disputa narrativa em torno da responsabilidade pelos acontecimentos. Multiplicaram-se justificativas, racionalizações e apelos por perdão político. Independentemente do juízo que se faça sobre as penas aplicadas, o contraste permanece eloquente: os patriotas de 1839 não exigiam imunidade para seus atos; aceitavam, até as últimas consequências, o preço da própria convicção.
Talvez seja justamente aí que resida a diferença essencial. O patriotismo autêntico não se mede pela intensidade dos slogans, pela quantidade de bandeiras desfraldadas ou pela frequência com que se entoa o hino nacional. Mede-se pela disposição de colocar o bem comum acima das conveniências pessoais. Quando a pátria se transforma apenas em instrumento de afirmação identitária, deixa de ser comunidade política para tornar-se espelho do ego.
A apropriação dos símbolos nacionais constitui um fenômeno particularmente revelador. A bandeira, a camisa da seleção e os emblemas cívicos deveriam representar a pluralidade de um povo inteiro. Entretanto, em diversos momentos recentes, esses símbolos passaram a funcionar como marcadores de pertencimento ideológico, quase como distintivos destinados a separar os "verdadeiros" brasileiros dos demais. O patriotismo, que deveria ampliar o espaço da cidadania, converte-se então em mecanismo de exclusão.
O contraste final é, ao mesmo tempo, ético e estético. O filme de Falardeau sustenta-se no silêncio pesado de homens que caminham para a morte sem expectativa de recompensa. Por outro lado, grande parte da política contemporânea desenvolve-se sob a lógica da exibição permanente, do espetáculo contínuo e da autopromoção incessante. Entre o cadafalso e a rede social existe uma distância que não é apenas tecnológica; é moral.
Por isso, permanece o convite às leitoras e aos leitores: assistam a 15 février 1839. Procurem a obra de Pierre Falardeau não apenas como um registro histórico de uma revolta distante, mas como uma oportunidade de refletir sobre o significado da palavra "patriotismo". Em tempos de discursos inflamados, símbolos ostentados e certezas instantâneas, a serenidade de Chevalier de Lorimier diante da morte obriga-nos a formular uma pergunta desconfortável: quanto vale uma convicção política quando chega o momento de pagar por ela?
A história não oferece respostas fáceis. Oferece, contudo, exemplos. E alguns exemplos possuem a rara capacidade de expor, sem uma única palavra de acusação, a diferença entre amar uma pátria e apenas utilizá-la em benefício próprio.
Texto sem data.