A infância e a adolescência não retornam como arquivo organizado. Apenas irrompem. Às vezes como sabor, outras como cheiro, quase sempre como matéria que recusa explicação e insiste em presença. Há nesses campos uma desordem essencial, como se o tempo, ao invés de linha, fosse substância sensível — algo que se dissolve e se recompõe sem obedecer à lógica da cronologia.
A memória, porém, não se limita às formas e aos movimentos; é também aroma, gosto e substância. E, nessa seara, o pensamento perde a rigidez explicativa e passa a operar por aproximações, por ressonâncias, por aquilo que não se nomeia inteiramente, mas se reconhece.
Os canudinhos de doce de leite ou doce de coco permanecem na lembrança como um luxo singelo e absoluto, tão doces quanto os próprios dias. Não havia neles apenas açúcar: havia duração. Uma espécie de permanência afetiva que se fixava na língua como promessa de mundo ainda intacto.
Os pães de queijo, as pizzas, o queijo branco — tudo isso compunha uma liturgia doméstica do sabor, uma mesa afetiva onde a infância e a adolescência encontravam o seu repouso. Não se tratava de abundância, mas de precisão sensorial: cada alimento parecia ocupar um lugar exato na economia íntima da felicidade possível.
Havia, sobretudo, o pãozinho de sal vindo da padaria da fábrica. Ainda posso quase senti-lo nas mãos: o calor, a leveza, o perfume da massa recém-saída do forno. Esse pão não era apenas alimento; era uma forma de tempo condensado, ainda quente, ainda respirante, como se a matéria tivesse sido surpreendida no instante exato de sua plenitude.
O pastelzinho de nata, comprado exclusivamente em Lorena, para mim era o ponto alto da sofisticação. Papai o levava para a mamãe como homenagem ao seu paladar rigoroso. Em nenhum outro lugar, e nunca mais, saboreei algo tão especial.
Entre tantas outras lembranças, permanece em mim o gosto do croquete de carne que silenciava no expositor de vidro daquele barzinho de esquina na Praça da Bandeira, ali mesmo onde funcionava a nossa rodoviária. Às segundas-feiras, eu viajava no Pássaro Marrom, a caminho das aulas de acordeon no Conservatório Musical de Lorena. Antes de entrar na liberdade que voava pelas estradas, o destino me oferecia aquela guloseima.
Como esquecer os risolis com massa de batata, recheados com carne moída ou queijo minas, feitos por mim? A receita perdeu-se no templo da memória, mas o gosto permanece faceiro.
Mas nisso tudo, nenhuma lembrança talvez seja tão soberana quanto o cheiro do café moído quando atravessava os ares de Piquete com majestade quase real. Aquele aroma transcendente não apenas passava pelo ar: reinava. Espalhava-se pelas ruas e pelas manhãs com uma presença que permanece, ainda hoje, como atmosfera de nobreza invisível, como se o cotidiano fosse, por instantes, elevado a uma ordem superior de existência. O café não inaugurava apenas o dia — instituía uma espécie de rito silencioso, em que o mundo parecia mais coeso, mais habitável, mais inteiro.
Nesse reino sensorial, a memória não distingue passado e presença. O que foi vivido não se afasta: retorna como matéria ativa, como se ainda pudesse ser tocado por dentro. E talvez seja isso que faz do passado uma pátria irrecuperável e, ao mesmo tempo, continuamente presente — não porque se repete, mas porque persiste em camadas invisíveis da percepção.
Há, nesse retorno, uma estranha forma de eternidade: não aquela que suspende o tempo, mas a que o adensa. O vivido não desaparece; infiltra-se. Permanece como substância discreta, como aroma que não se dissolve por completo, como sabor que insiste além do instante.
É nesse ponto que a memória deixa de ser lembrança para se tornar território. Não um lugar ao qual se volta, mas uma forma de permanecer dentro do que não mais está em mim.
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2026 — 00h33