A Avenida Niemeyer, em São Conrado, ainda guarda algo de 1920, quando a engenharia abriu o Viaduto Rei Alberto sobre a pedra e o mar. O viaduto foi construído nesse contexto de intervenções e embelezamento da orla, em homenagem à visita do rei Alberto I da Bélgica, integrando o conjunto da via já existente. Abaixo dele, entre fendas de concreto e rocha, nasce o que se chama Gruta da Imprensa — cognome histórico estabilizado pela tradição — abrigo improvisado de olhares atentos às obras, às visitas oficiais, às corridas automobilísticas (Circuito da Gávea) que rasgavam a curva do litoral.
Não há descida fácil. A encosta impõe recusa — não por medo simples, mas por um limite antigo entre o corpo e a inclinação do mundo. Por esse motivo, a permanência mais segura é na estrada, apenas para comprovar que o lugar existe.
A desafiar o perigo, percebe-se um corpo mendigo adormecido no conforto desconfortável da paisagem. Não há gesto que o desperte. Não há chamada possível. O lugar protege o que nele repousa sem explicação. Pobreza e deslumbramento coexistem num contraste que não se suaviza.
Da beirada, sem descer, a paisagem se revela na insegurança do olhar. O Atlântico insiste em brilho irregular, sem repouso. Entre ambos, um intervalo que não se resolve: passagem ou abismo?
Em 1920, jornalistas faziam dessa pergunta um posto de observação e escreviam o mundo antes que o mundo mudasse de forma. Como se a escrita pudesse fixar o instável da curva, o movimento do litoral, a engenharia ainda recém-aberta sobre o vazio.
Hoje, resta o mesmo gesto, acrescido de mais cuidado: olhar sem descer, permanecer sem tocar o fundo. A certeza mínima de que o lugar existe — não pela descida, mas pela recusa que a paisagem impõe.
Entre estrada, mar e viaduto, entre miséria e beleza, a Cidade Maravilhosa segue em suspensão.
*Crônica poético-filosófica de paisagem urbana contemporânea
Rio de Janeiro, 31 de maio de 2026 — 4h29