Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

O espelho de uma época: a estética do desaparecimento

 

Algumas informações inquietam o meu espírito e não sossego enquanto as palavras não desabrocham. Foi assim quando li a respeito do retorno da magreza extrema.

 

Nem toda tendência humana se limita ao vestuário. Algumas atravessam a superfície dos costumes e alcançam zonas mais profundas, onde uma época revela aquilo que venera, aquilo que teme e aquilo que escolhe chamar de belo.

 

A magreza extrema retorna como retornam algumas ideias antigas: não pela força da verdade, mas pela persistência do fascínio. Surge nas passarelas, infiltra-se nas fotografias, atravessa vitrines e algoritmos, até adquirir a aparência enganosa de destino.

 

Nenhuma época escolhe seus ídolos ao acaso. Quando a escassez passa a seduzir, algo além da estética pede interpretação. Talvez a obsessão contemporânea pela redução revele uma cultura cansada do peso das próprias contradições. Corpos menores ocupam menos espaço. Desejos menores exigem menos coragem. Presenças menores perturbam menos a ordem.

 

Todavia, o mundo natural desconhece a linguagem da diminuição. O mar não encontra grandeza na retração das marés; a árvore não alcança o céu pela recusa da seiva. Tudo o que vive carrega, em sua natureza, um impulso de expansão, nutrição e presença, não de diminuição ou privação.

 

Talvez por isso a imagem feminina difundida pela atualidade desperte estranheza. Não por ser magra, mas por parecer construída sob uma lógica de desaparecimento — como se a beleza residisse na lenta subtração de si.

 

A verdadeira elegância, contudo, habita outro lugar. Não nasce da luta contra a própria matéria, nem da tentativa de corresponder aos espelhos de uma época. Surge quando o corpo deixa de ser tratado como inimigo ou projeto de correção infinita e passa a ser habitado com aceitação lúcida. O corpo permanece; a existência permanece; ambos deixam de disputar espaço.

 

Toda civilização deixa inscrições sobre a pedra. A nossa parece escrevê-las sobre a pele. Resta saber se o futuro enxergará, nessas marcas, um ideal de beleza ou o retrato de uma sociedade que confundiu presença com ausência.

 

Rio de Janeiro, 30 de maio de 2026 — 5h46

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 30/05/2026
Alterado em 31/05/2026
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