A fome inscreve-se no corpo como escrita antiga, anterior a qualquer norma. No limite das casas, a ausência de alimento adquire forma de linguagem bruta, sem ornamento. O Estado, ao se aproximar dessa margem, não dissolve o vazio; apenas organiza sua visibilidade em códigos, cadastros, números, gestos administrativos.
No intervalo instaurado pelo Bolsa Família, forma-se uma zona ambígua, onde a sobrevivência deixa de ser puro acaso e passa a habitar uma estrutura mínima de permanência. Nada se resolve por completo. Algo, contudo, muda de natureza: a fome deixa de ser silêncio absoluto e passa a existir sob vigilância de uma ordem pública que calcula, regula, sustenta — e, ainda assim, não elimina a precariedade.
Rio de Janeiro, 28 de maio de 2026 — 19h24