Acabo de ler a notícia de uma empresária brasileira presa por praticar zoosadismo. O horror não reside apenas na existência do crime, mas na natureza da violência: sofrimento provocado de maneira consciente, repetida, deliberadamente dirigido a criaturas incapazes de compreender a razão da própria dor.
Zoosadismo é a prática de obter prazer — psicológico, emocional ou sexual — a partir do sofrimento, da tortura, da mutilação ou da morte de animais. Não se trata apenas de maus-tratos impulsivos ou negligência. Existe, nesse tipo de violência, uma relação perversa com a dor do ser indefeso. O sofrimento converte-se em objeto. A vida transforma-se em matéria disponível ao domínio.
Talvez por isso a crueldade contra animais produza sensação tão perturbadora. Um animal agredido não compreende perversidade, ódio ou sadismo. Ainda assim, aproxima-se, confia, procura afeto até nos instantes de medo. A violência atinge precisamente a inocência absoluta.
O espanto cresce quando a brutalidade surge associada a vidas aparentemente comuns, ambientes respeitáveis, rotinas elegantes e rostos socialmente aceitos. A monstruosidade raramente possui aparência monstruosa. Muitas vezes veste normalidade.
A criminologia e a psicologia forense observam o zoosadismo como comportamento grave, frequentemente relacionado à erosão da empatia e ao prazer no domínio do vulnerável. Em diversos estudos, a crueldade extrema contra animais aparece associada a outras formas de violência, inclusive doméstica e interpessoal. Nenhuma brutalidade nasce de repente. Antes do gesto extremo, ocorre uma lenta destruição da sensibilidade moral.
Por isso, um animal abandonado na rua jamais representa apenas abandono animal. Funciona como espelho da própria sociedade. Corpos feridos entre carros, fome e indiferença revelam o que acontece quando a compaixão deixa de ocupar espaço dentro da consciência coletiva.
Nenhuma civilização permanece íntegra depois que aprende a conviver pacificamente com o sofrimento dos indefesos. Primeiro desaparece a ternura. Depois desaparece o espanto diante da violência. Por fim, a brutalidade adquire aparência cotidiana, elegante, quase invisível.
Talvez o mais aterrador não seja a existência de pessoas capazes de torturar um animal, mas a possibilidade de que alguém acaricie um cão pela manhã, sorria para vizinhos durante a tarde e, à noite, encontre prazer no grito de uma criatura indefesa sem que a própria consciência experimente qualquer sombra de horror.
Rio de Janeiro, 28 de maio de 2026 — 15h47