Durante séculos, afirmaram que, no além-mar, depois do horizonte, habitavam monstros maléficos e mortíferos. E o desconhecido tornou-se território do medo — esse monstro sobrenatural — que sempre serviu como instrumento eficiente de controle do pensamento humano.
Mas, por sorte e destino dos fortes, sobrevive pelos ares uma verdade inquietante: o horizonte recua. Sempre recua.
Em seu percurso, quem atravessa fronteiras mentais proibidas percebe que muitos abismos foram erguidos apenas para impedir travessias. E, como alforria do ser, a consciência se liberta à medida que enfraquecem os mecanismos de controle baseados em culpa e terror metafísico.
A religiosidade tóxica transita pelos mesmos caminhos: não basta oferecer fé. Fabrica ameaças — infernos, culpas eternas e vigilâncias invisíveis.
Convém guardar no coração que a fé autêntica não nasce do terror, nem pede submissão cega. Nasce da coragem de atravessar regiões interiores sem mapas definitivos e permanecer diante do mistério indomável sem transformar o sagrado numa prisão.
E é precisamente isso que a religiosidade tóxica receia: uma espiritualidade sem algemas.
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2926 — 16h45