Sempre repeti para os meus alunos:
— É profundamente infantil a necessidade humana de moralizar o universo.
Quando o mar invade cidades, logo surgem sacerdotes do sentido: “castigo”. Quando a terra se rompe sob edifícios, aparecem intérpretes do abismo: “vingança”. Como se furacões frequentassem tribunais éticos. Como se vulcões possuíssem ressentimentos acumulados contra determinados territórios da civilização.
É preciso assumir que a natureza desconhece nossa dramaturgia moral. O oceano não odeia. A tempestade não se enfurece. O relâmpago não pune arrogâncias humanas. Existe apenas matéria — movimento, colisão, placas tectônicas deslizando sob o sono precário das metrópoles. A física jamais consultou a culpa ou a inocência de alguém.
Ainda assim, a mente humana insiste em transformar o caos em narrativa. O acaso humilha. A indiferença cósmica fere o orgulho da espécie. Por isso inventamos “a fúria da natureza”, “a crueldade do destino”, “a vingança da vida”. Não suportamos um universo sem intenção porque fomos educados para acreditar que tudo gira ao redor do drama humano.
Talvez resida aí uma das mais perturbadoras vertigens filosóficas: um mundo cruel ainda presta atenção em nós. A crueldade pressupõe olhar. O ódio exige consciência. A vingança necessita memória.
Já a indiferença…
A indiferença dissolve nossa importância na escala silenciosa das galáxias, porque uma tempestade não delibera. Um terremoto não escolhe vítimas. O inverno não possui perversidade moral apenas porque congela mendigos e jardins com a mesma serenidade mineral. Não há emoção, compaixão ou sadismo. A pedra não odeia, o gelo não discrimina. Enfim, a natureza não opera segundo categorias éticas humanas.
Pressinto que o verdadeiro escândalo metafísico não seja a destruição, mas a descoberta de que o universo jamais assinou compromisso algum com nossa permanência.
Todavia, cuidado: o universo não conspira contra ninguém. Ainda assim, desaba.
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2026 — 13h02