Algumas expressões políticas carregam, sob aparência técnica, uma silenciosa violência filosófica. “Transição em dez anos” pertence a essa categoria.
A fórmula sugere prudência administrativa, planejamento racional e maturidade institucional. Todavia, palavras nunca chegam vazias à História.
Dez anos para quê?
A pergunta, que deveria ocupar o centro do debate público, dissolve-se em gráficos, índices e abstrações financeiras. Invocam-se eficiência, modernização, flexibilidade e responsabilidade fiscal.
O vocabulário econômico atual adquiriu a capacidade singular de converter dramas humanos em terminologia neutra. A precariedade recebe nomes elegantes. A supressão de garantias sociais passa a chamar-se atualização estrutural.
Nenhuma civilização abandona direitos de maneira abrupta — estes desaparecem mediante lentas anestesias morais. Modifica-se a linguagem. O trabalhador transforma-se em “custo”. A aposentadoria converte-se em “déficit”. A proteção social torna-se “peso estatal”. Pouco a pouco, o próprio conceito de dignidade coletiva passa a exigir justificativa contábil.
Durante séculos, direitos sociais nasceram do sofrimento humano e da pressão dos vulneráveis contra estruturas resistentes à partilha. Por isso, causa estranheza ouvir certos setores tratarem tais conquistas como imperfeições passíveis de correção administrativa.
Não se pode esquecer que nenhum projeto impopular se apresenta como destruição. Reformas que reduzem direitos surgem revestidas por discursos de modernização, necessidade histórica ou adaptação inevitável ao futuro. Assim, conflitos humanos concretos desaparecem sob a aparência neutra da racionalidade técnica.
Talvez o aspecto mais inquietante dessa ideia de “transição em dez anos” não resida apenas nas reformas propostas, mas na concepção de humanidade implicitamente contida nesse discurso. Afinal, que espécie de civilização contempla direitos históricos como entraves econômicos?
Toda época produz sua própria forma de barbárie elegante. A contemporânea raramente utiliza fardas. Prefere planilhas. Sorri e dança diante das câmeras enquanto redefine, de modo gradual, os próprios limites da proteção humana.
Sílvia Mota
Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2026 — 22h30