Ao passar de carro pela orla do Flamengo, o fluxo da cidade se abre e, por um instante, se interrompe no meu olhar. Entre prédios de geometria disciplinada e o movimento contínuo da avenida, surge uma construção que não se explica de imediato — o Castelinho do Flamengo — que impõe hesitação, como se a paisagem exigisse um segundo de permanência antes de seguir.
Entre linhas de trânsito e marés de luz urbana, o edifício aparece como um corpo deslocado. Não acompanha o ritmo da cidade. Insiste em outro tempo. Sua presença não se integra — interrompe.
A contemplação se fixa por um breve intervalo: torres que não defendem, janelas que não obedecem à função, ornamentos sem justificativa prática. Nada ali busca neutralidade. A superfície atua como imagem, não como estrutura apenas.
Há, nesse ponto, uma afinidade secreta com o ofício da pintura que me atravessa e seduz: sobreposição de formas, tensão de camadas, matéria que não se resolve.
O olhar é fugidio. Bastante para que a imagem se grave sem esforço nas minhas rotinas.
O carro segue. E então, como gesto quase automático, retorno o olhar para trás. O Castelinho se afasta, mas insiste — não só como arquitetura, mas como imagem que não se encerra no que se vê.
Rio de Janeiro, 17 de maio de 2026 — 22h17