1— A parábola: a cobra e o vagalume
"Era uma vez uma cobra que perseguia um vaga-lume, que nada mais fazia do que simplesmente brilhar. Ele fugia rápido com medo da feroz predadora e a cobra nem pensava em desistir. Fugiu um dia, dois dias, mais outro e nada. No quarto dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra:
Posso fazer-lhe três perguntas?
– Pode. Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar, pode perguntar. Falou a cobra já indignada com o rumo da conversa.
– Pertenço à sua cadeia alimentar? Indagou o vaga-lume.
– Não. Respondeu a cobra.
– Te fiz alguma coisa? Voltou a perguntar o vaga-lume.
– Não. Voltou a responder a cobra.
– Então, por que você quer me comer? Falou o vaga-lume.
E a cobra respondeu: – Porque eu NÃO suporto ver você BRILHAR!"
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2— Meditação filosófica
A fábula da cobra e do vagalume não se encerra no território singelo das narrativas morais. Sob aparência breve, abre-se um campo de investigação mais severo: a relação entre a luz que insiste em existir e a sombra que se organiza como hábito de mundo.
O vagalume não disputa espaço, não argumenta, não se impõe. Cumpre uma condição anterior à linguagem: emite luz. Não há cálculo nesse gesto, tampouco estratégia. Trata-se de uma forma de existência que coincide consigo mesma. Brilho como necessidade íntima, não como escolha retórica.
A cobra, por sua vez, desloca a ordem esperada da natureza. A própria narrativa suspende a justificativa biológica. Não há fome, não há cadeia alimentar, não há urgência de sobrevivência. O gesto de perseguição nasce em excesso. E todo excesso, quando desprovido de necessidade, pertence ao domínio do espírito, porque deixa de ser apenas instinto e passa a sugerir desejo, fascínio, crueldade, obsessão, prazer ou vontade.
O encontro entre ambos não descreve um conflito zoológico, mas uma cena ontológica: a fricção entre presença luminosa e estrutura ressentida.
O vagalume atravessa a noite sem intenção de confronto. Ainda assim, a claridade produz efeito colateral. A luz não interroga, mas revela. Não acusa, mas desorganiza a estabilidade da penumbra. Aquilo que parecia contínuo, homogêneo e neutro passa a exibir contornos. A escuridão deixa de se sustentar como neutralidade.
Nesse ponto, o problema não reside na luz. O problema emerge naquilo que a luz torna impossível sustentar.
A cobra não busca alimento. Busca interrupção. Não se dirige ao corpo, mas ao apagamento do brilho.
A pergunta do vagalume interrompe a lógica da violência com precisão quase metafísica: pertencimento à cadeia alimentar, ausência de dano, ausência de provocação. Três perguntas que desmontam qualquer justificativa externa. Resta apenas o núcleo cru da resposta:
— Porque não suporto ver você brilhar.
Nessa frase, a fábula abandona o campo moral e ingressa no território filosófico mais inquietante: a intolerância diante do ser que não depende de autorização para se afirmar.
O brilho do vagalume não atua como provocação consciente. Funciona como espelho involuntário. Toda luz produz contraste. Todo contraste revela o que se tentou manter indiferenciado. A sombra perde neutralidade quando encontra aquilo que não se submete a ela.
Sob essa perspectiva, a perseguição não se dirige ao outro, mas àquilo que o outro expõe sem intenção. A violência surge como tentativa de restaurar a uniformidade da noite. Uma noite sem interrupções parece mais suportável do que a coexistência com aquilo que brilha.
A tradição filosófica oferece múltiplas leituras desse gesto.
Em chave schopenhaueriana, reconhece-se o impulso cego que não busca finalidade, apenas descarga de tensão interna. Não se trata de desejo de posse, mas de uma vontade que se move sem direção clara, apenas para evitar a dor de uma presença que excede a capacidade de assimilação.
Em leitura nietzschiana, o brilho do vagalume pode ser compreendido como afirmação espontânea do ser, enquanto a reação da cobra se aproxima de uma forma de ressentimento que já não cria valores, apenas reage à existência de valores alheios. O gesto destrutivo não inaugura força; denuncia incapacidade de criação.
Em tradição agostiniana, a luz não constitui ameaça, mas princípio. A dificuldade não reside na claridade, mas na disposição interna incapaz de habitá-la. A sombra não possui substância própria; depende da luz para se constituir como contraste. Ainda assim, pode revoltar-se contra aquilo que a torna perceptível.
A ironia ontológica da fábula se instala exatamente nesse ponto: a cobra só percebe o vagalume porque há luz. A tentativa de destruição recai sobre aquilo que permite percepção. O gesto de aniquilamento contém, em si, uma forma de autodesorganização.
O vagalume não acusa. Ainda assim, sua existência produz efeito de acusação silenciosa. Não por intenção moral, mas por diferença estrutural. A presença de um modo de ser íntegro, mesmo sem discurso, desloca zonas de conforto interior. Aquilo que não precisa justificar-se torna visível aquilo que se habituou à justificativa constante.
Daí emerge um segundo nível de leitura: nem toda hostilidade nasce de ofensa. Há hostilidades que nascem da exposição involuntária de uma insuficiência interna.
O brilho não exige reconhecimento. Apenas acontece. E justamente por isso se torna difícil de suportar em determinados regimes afetivos. Não há como negociar com aquilo que simplesmente é.
A violência, então, revela menos o objeto perseguido e mais o regime interno de quem persegue. A luz não produz a sombra; apenas torna sua forma perceptível.
Nesse sentido, a fábula não se encerra no vagalume. Também não se encerra na cobra. A cena se desloca para o interior da experiência humana.
Ambientes sociais, afetivos e profissionais repetem, em escala variável, a mesma estrutura: a dificuldade de coexistir com aquilo que não se curva à medianidade, que não se adapta à expectativa de apagamento. Inteligência, sensibilidade, integridade e alegria silenciosa tornam-se, em determinados contextos, elementos de perturbação. Não por defeito, mas por contraste.
O brilho do outro não age como agressão. Atua como evidência.
A pergunta do vagalume retorna, agora sem corpo narrativo: que falta sustenta a necessidade de apagar aquilo que apenas existe?
A resposta da cobra não oferece solução moral. Oferece diagnóstico existencial. A incapacidade de suportar a luz alheia indica ausência de integração interna com aquilo que permanece não realizado.
Nesse ponto, a fábula desloca-se definitivamente para dentro. Cobra e vagalume deixam de ser personagens exteriores. Passam a funcionar como tensões simultâneas no interior de uma mesma consciência: uma parte orientada à emissão de luz, outra inclinada à tentativa de apagamento do que brilha.
A travessia filosófica que emerge desse reconhecimento não aponta para a eliminação da sombra, mas para a recusa de seu domínio. Não há vida sem zonas opacas. Contudo, há diferença entre sombra habitada e sombra que tenta extinguir o que ilumina.
A questão decisiva não se coloca fora:
o que se faz quando a luz de outro ser expõe aquilo que permaneceu sem forma no interior próprio?
A resposta da cobra escolhe interrupção. A resposta do vagalume permanece silenciosa, pois o silêncio constitui seu modo de continuidade.
A fábula encerra-se sem conciliação, porque não há reconciliação entre luz e ressentimento. Há apenas escolha contínua entre duas orientações: apagar o que incomoda ou atravessar o incômodo até que algo em si se reorganize.
Talvez resida aí a única ética possível dessa narrativa: a recusa de permitir que a sombra decida o destino da luz, porque, quando a luz se interrompe por medo da serpente, não se produz paz — produz-se apenas uma noite sem testemunhas.
Rio de Janeiro, 17 de maio de 2926 — 16h15