Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

As flores do insuportável

 

Certas dores cultivam jardins —

todos impróprios para a matéria viva.

Não sob o sol. Nem junto às águas.

Antes — naquele território obscuro

onde a consciência amadurece tarde

e o silêncio adquire densidade mineral.

 

Ali floresce o insuportável —

pétalas frias, raízes deslocadas.

Não perfume. Não pólen solitário.

Antes — bibliotecas abandonadas

de cartas estagnadas na dor insossa

das catapultas durante a chuva.

 

O espírito humano é bizarro —

assaganhaça horticulturas estranhas.

Não lembranças. Nem culpas antigas.

Antes — ausências preservadas

com rigor quase litúrgico

sob a ferrugem imóvel do tempo.

 

Parte do afeto humano, ninguém admite —

alimenta-se daquilo que devora.

Não fome. Não tortura possível.

Antes — almas inclinadas por longos anos

sobre as verdades mortas 

das ruínas silenciosas interiores.

 

Essas almas parecem monges —

diante de manuscritos incendiados.

Não fraqueza. Nem coragem inútil.

Antes — excesso de percepção

capaz de transformar delicadeza

em tragicômica condenação.

 

Certas profundezas recusam a superfície —

sufocam em águas limpas e rasas.

Não sujeira. Não destino indecoroso.

Antes — vidas atravessadas

por espécie rara e infeliz

de excesso interior que abate.

 

Os sensíveis escutam ruídos —

o mundo pragmático ensurdece.

Não máscara. Não velhice fatigada.

Antes — lenta decomposição

da ternura que se esvai

sob o azinhavre dos dias úteis.

 

Há som para quem percebe demais —

silêncio aos que gritam desespero.

Não amparo. Nem claridade humana.

Antes — morte dos sentidos

amalgamados na solidão

que pesa e soluça no escuro.

 

As flores do insuportável nascem aí —

entre a lucidez e a loucura.

Não linguagem. Não comunicação fria.

Antes — flores sem primavera,

belas como vitrais partidos

após alguma guerra religiosa.

 

Ainda assim, o coração insiste —

sempre fiel à ladainha do tempo.

Não esperança. Nem desejo intacto.

Antes — consciência ferida

pelo estar só nas vias do esquecimento

que pertence às criaturas solares.

 

Há beleza nisso tudo, infelizmente —

uma beleza austera, quase ofensiva.

Não música. Não ladainha frívola.

Antes — poesia sem rima

capaz de gerar sextetos

para sobreviver ao desespero.

 

Vidas onde a beleza

e a devastação

crescem na mesma raiz.

 

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

Rio de Janeiro, 9 e 16 de maio de 2026 — 1h51

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 16/05/2026
Alterado em 17/05/2026
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