Certas dores cultivam jardins —
todos impróprios para a matéria viva.
Não sob o sol. Nem junto às águas.
Antes — naquele território obscuro
onde a consciência amadurece tarde
e o silêncio adquire densidade mineral.
Ali floresce o insuportável —
pétalas frias, raízes deslocadas.
Não perfume. Não pólen solitário.
Antes — bibliotecas abandonadas
de cartas estagnadas na dor insossa
das catapultas durante a chuva.
O espírito humano é bizarro —
assaganhaça horticulturas estranhas.
Não lembranças. Nem culpas antigas.
Antes — ausências preservadas
com rigor quase litúrgico
sob a ferrugem imóvel do tempo.
Parte do afeto humano, ninguém admite —
alimenta-se daquilo que devora.
Não fome. Não tortura possível.
Antes — almas inclinadas por longos anos
sobre as verdades mortas
das ruínas silenciosas interiores.
Essas almas parecem monges —
diante de manuscritos incendiados.
Não fraqueza. Nem coragem inútil.
Antes — excesso de percepção
capaz de transformar delicadeza
em tragicômica condenação.
Certas profundezas recusam a superfície —
sufocam em águas limpas e rasas.
Não sujeira. Não destino indecoroso.
Antes — vidas atravessadas
por espécie rara e infeliz
de excesso interior que abate.
Os sensíveis escutam ruídos —
o mundo pragmático ensurdece.
Não máscara. Não velhice fatigada.
Antes — lenta decomposição
da ternura que se esvai
sob o azinhavre dos dias úteis.
Há som para quem percebe demais —
silêncio aos que gritam desespero.
Não amparo. Nem claridade humana.
Antes — morte dos sentidos
amalgamados na solidão
que pesa e soluça no escuro.
As flores do insuportável nascem aí —
entre a lucidez e a loucura.
Não linguagem. Não comunicação fria.
Antes — flores sem primavera,
belas como vitrais partidos
após alguma guerra religiosa.
Ainda assim, o coração insiste —
sempre fiel à ladainha do tempo.
Não esperança. Nem desejo intacto.
Antes — consciência ferida
pelo estar só nas vias do esquecimento
que pertence às criaturas solares.
Há beleza nisso tudo, infelizmente —
uma beleza austera, quase ofensiva.
Não música. Não ladainha frívola.
Antes — poesia sem rima
capaz de gerar sextetos
para sobreviver ao desespero.
Vidas onde a beleza
e a devastação
crescem na mesma raiz.
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 9 e 16 de maio de 2026 — 1h51