Sobre o chão pálido do apartamento do meu primogênito, adormeceu Rocky. Nenhuma inquietação perturba a delicada arquitetura do sono. As patas recolhidas guardam a serenidade dos seres que voltaram a acreditar no afeto.
Tal serenidade, contudo, não nasceu intacta.
Antes deste repouso, houve duas experiências de abandono. Duas rupturas precoces atravessaram a inocência de um pequeno coração sem defesa. Duas portas fecharam-se sobre a fidelidade muda de um cão que, sem compreender a crueldade humana, aguardou retorno diante do vazio. Restaram corredores estranhos, cheiros desconhecidos, silêncios longos demais para um ser nascido apenas para amar.
E foi nesse estágio traiçoeiro da paz que se redime que o meu filho entrou na sua vida. Na realidade, escolheram-se ambos, um ao outro.
Nenhuma sombra do passado foi suficiente para endurecer completamente a confiança daquele olhar. Rocky pousou uma das patas sobre os joelhos do meu filho, como se dissesse:
— Cheguei para você ser meu pai.
E foi assim que o meu filho descobriu o amor paternal.
Talvez por isso exista algo quase sagrado na mansidão dourada da pelagem do menino Rocky. Como se o próprio destino, enfim cansado da crueldade humana, decidisse proteger a respiração tranquila do seu pequeno corpo adormecido.
Há criaturas nascidas para confiar no mundo mesmo depois da perda.
Rocky dorme com a pureza litúrgica dos inocentes.
Ensimesmada diante desse quadro silencioso, penso com meus botões que talvez o amor verdadeiro possua esta forma humilde: um ser que fecha os olhos sem medo, porque finalmente descobriu que não despertará sozinho.
Sílvia Mota
Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 13 de maio de 2026 — 22h12