A casa permanece estranhamente imóvel. Nenhuma mensagem urgente. Nenhum texto por concluir. Nenhum pincel carregado de tinta. Nenhuma necessidade alheia atravessando a tarde como faca afiada.
Surge um desconforto quase físico.
As mãos repousam inúteis sobre o tecido da poltrona, como objetos esquecidos da própria finalidade. A luz avança devagar pela estante. Um ruído distante de louça vem do apartamento vizinho. E só.
Então surge a pergunta: — Quem existe quando ninguém pede nada?
Silêncio.
Apenas o relógio — esse animal mecânico idoso — mastiga e rumina o tempo sobre a parede.
Durante anos, a vida acostumou-se ao movimento contínuo: resolver, escrever, pintar, cuidar, responder, produzir alguma forma de presença para o mundo.
Mas nessa tarde nenhuma utilidade parece necessária.
E, pela primeira vez em muito tempo, a própria existência surge sem profissão, sem tarefa, sem talento, sem personagem, sem nome. Quase desconhecida.
A estranheza não vem do silêncio.
Vem da descoberta de que talvez haja vida também fora da engrenagem.
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 12 de maio de 2026 — 14h05