Nada na vida é insubstituível. Nem os objetos, nem os nomes repetidos com convicção, nem os vínculos amorosos que pareciam feitos de eternidade. Suportei distâncias, traições e lutos — mas tudo se rearranjou, tudo se deslocou, tudo encontrou outro lugar no tecido indiferente do tempo.
A casa do interior permanece em pé, ainda que mude o centro das atenções sem aviso e sem pedir permissão. O apartamento que me encantava aos pés do Gigante Adormecido da Guanabara permanece incólume e abriga outros sonhos, diferentes dos meus. A xícara de porcelana conserva a forma do uso, embora já não sustente o significado que lhe atribuía calor humano. Os quadros que burilei ao som de pincéis e espátulas, e que foram somente meus por um curto tempo, hoje recebem molduras novas e habitam outros espaços.
Abro as gavetas do destino como quem busca arquivos de uma antiga importância: papéis, contas antigas, promessas vitais — urgências agora desfeitas em matéria neutra. Nada protestou. Tudo aceitou ser substituído.
O mundo não interrompe o próprio curso diante das ausências e das perdas. Prossegue com precisão silenciosa, reorganiza funções, redistribui sentidos, apaga hierarquias. O que parecia essencial dissolve-se sem espetáculo.
Mas, ainda assim, reconheço uma exceção.
Na travessia da existência, apenas a vida e o amor dos meus filhos recusam equivalência. Não há substituição possível nesse território íntimo, onde o vínculo não pertence à lógica da troca nem à gramática da perda.
Tudo o mais se refaz. Esse lugar, não.
Fecho a gaveta. O gesto encontra um tipo raro de clareza: a consciência de que quase tudo se desfaz, quase tudo se recompõe, quase tudo se reinventa — exceto aquilo que fundamenta o próprio sentido de permanecer. 🪷🙏🪷
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026 — 15h05