Tenho consciência de que, às vezes, sou rigorosa com o mundo, porque atravessei a vida sob o peso de uma vigilância interior incessante. Há pessoas que aprendem cedo a converter disciplina em abrigo: organizam a dor, ocultam o cansaço, sustentam os próprios abismos sem testemunha. Com o tempo, a exigência deixa de ser escolha e passa a constituir linguagem.
Talvez por isso eu espere tanto da vida, das palavras, dos vínculos e até dos silêncios, onde minha poesia costuma respirar. Certas superficialidades me cansam mais do que a própria luta, como se a ausência de densidade produzisse em mim uma espécie de exílio íntimo.
Contudo, a maternidade em mim jamais se submeteu por inteiro a essa arquitetura austera. Existe nesse território uma força sem ruído, antiga e indomável, quase sagrada, diante da qual toda dureza perde função. Mesmo quando o mundo me alcança com aspereza, basta o afeto de um filho — gesto único, que seja — para que algo em mim desprenda as ferragens do rigor e recorde, por instantes, a delicadeza, o repouso e o sentido.
Rio de Janeiro, 7 de maio de 2026 — 5h50