Shakira — entre celebração e sustentação
Não, não estive ao vivo e a cores no show de Shakira, nas areias da Praia de Copacabana. Desde então, acompanho o acontecimento pelas redes. Surpresa. Enlevo.
Há noites em que o espetáculo abdica da superfície e se converte em instância de revelação — não a revelação luminosa, mas aquela que irrompe por fissura, quase sem ruído, no interior do que se habituou a chamar cotidiano. Quando a palavra emerge, a cena excede o entretenimento — roça a consciência pública.
A música, então, deixa de se limitar ao corpo e cede a outra coreografia — menos evidente: a da sustentação. Espalha-se pela vida social uma arquitetura silenciosa, apoiada em gestos reiterados, não celebrados, frequentemente invisíveis. A tais gestos se atribui, com economia crítica, o nome de “força feminina”. O termo, porém, opera como eufemismo — sob aparência de exaltação, um regime de acúmulo.
Em determinado momento, a própria Shakira desloca o eixo da celebração para a resistência cotidiana. Afirma que as mulheres sustentam o mundo mesmo quando atravessadas por abandono, excesso, perda ou desalento — e que seguem de pé não por vocação sacrificial, mas porque a realidade histórica lhes impôs essa permanência. E afirma ser uma dessas mulheres. A fala, recebida sob aplausos, ultrapassa o efeito motivacional: toca uma estrutura antiga, quase naturalizada, segundo a qual às mulheres se entrega não apenas o afeto, mas a administração do desgaste.
Há sobreposição estrutural de tempos — o produtivo, o do cuidado, o doméstico, o que resta à interioridade. Esses tempos não se sucedem: colidem. Da colisão, nasce exaustão — que ainda se nomeia virtude.
A fala que ecoa sobre a areia, misturada ao rumor do mar, não inaugura diagnóstico; reinscreve evidência. Nesse gesto, opera-se um deslocamento: a chamada “força” abandona o estatuto de essência — revela-se efeito de uma distribuição desigual de encargos.
A maquinaria social preserva a lógica de compressão. Jornadas extensas, escalas rígidas, dispositivos de produtividade que sequestram o intervalo — espaço mínimo onde a vida poderia, ainda que brevemente, reconhecer-se. Submetida a esse regime, a existência perde espessura e passa a operar sob o signo da funcionalidade contínua.
Persiste uma tensão entre espetáculo e vivido. Num plano, celebração; noutro, sustentação. E sustentar, aqui, não figura metáfora leve — constitui condição de possibilidade do próprio tecido social.
O mar, alheio às formulações humanas, insiste em cadência arcaica. Presença que não se limita à paisagem noturna — oferece outra medida, não regida pela urgência produtiva. Diante dele, evidencia-se o descompasso entre o ritmo da natureza e aquele imposto à vida social.
A potência da fala não está na promessa de solução, mas na capacidade de desnaturalizar o hábito. Deslocar o olhar — ainda que por um instante — até o ponto em que a virtude revela sua face de desgaste.
Nesse intervalo — entre uma onda e outra, entre o gesto e o eco —, persiste uma pergunta refratária ao apagamento: até quando a sustentação do mundo será confundida com destino?
Rio de Janeiro, 4 de maio de 2026 — 9h04