No ventre mineral, fermenta a noite antiga,
nas crostas, um ardor sem nome se devora.
A carne da raiz é dança em falsa intriga,
e o tempo, em densa cal, silencioso aflora.
Há nervos de basalto em febre mal contida,
que pulsam sob o chão, sem forma nem memória.
A seiva já não traz promessa de outra vida,
mas resto que sustém extinta trajetória.
O ser humano, à luz, esquece o fim da Terra,
e pisa sem ouvir o grito desumano.
Do fruto que colheu, esconde a própria guerra.
O abismo que sustém a vida em surda chama,
sussurra o verde amor — no íntimo, profano.
E beija a escuridão da víscera que inflama.
Rio de Janeiro, 3 de maio de 2026 — 5h34