Ainda me alcança
o gosto daquele beijo
deslocado do corpo
onde um dia se inscreveu.
O que se perde não desaparece:
muda de lugar no tempo
e se recolhe fatigado
onde a vontade perde o domínio.
Se houve ternura,
não houve testemunha.
O afeto excessivo
não se organiza em narrativa —
atravessa, escapa ao contorno
do que se fixa em linguagem.
A dor permanece calada
à margem do dizível,
sem forma conclusiva —
e a ausência não fecha.
Resta um caminho sem chegada
nesse território de barro.
Que outro desenho de amor
se aproxime afinado
e lhe receba sem vestígio
do que aqui se dissolve.
Que a paz da paixão
lhe alcance sem paz,
sem o que em mim permanece
sem lugar de repouso.
O que foi toque
ainda vibra sem corpo.
Rio de Janeiro, 1⁰ de maio de 2026 — 20h05