“O feminismo é um movimento misândrico totalitário” — li esse comentário na divulgação de uma aula na qual o Prof. Ricoy — Política e Humanidades — defende o senso crítico, ao mesmo tempo em que qualifica como canalhas os apoiadores do Red Pill.
Ora, chamar o feminismo de “movimento misândrico totalitário” não resiste a exame rigoroso — a frase substitui análise por rótulo e dissolve diferenças internas numa caricatura. A história do feminismo é plural, atravessada por correntes muitas vezes divergentes, que se estendem de reivindicações jurídicas elementares a críticas culturais de alta complexidade. Reduzi-la a um bloco monolítico e hostil equivale a descrever um oceano como se fosse uma única onda.
Há palavras que, de tanto peso, deformam aquilo que pretendem sustentar. Não descrevem — esmagam. Assim ocorre quando o termo “totalitário” se projeta sobre qualquer movimento que desagrade, como se a discordância já contivesse, em germe, uma tirania.
O feminismo — campo inquieto de ideias — jamais se deixou fixar em contorno único. Desde Simone de Beauvoir, que inscreve o feminino na ordem da construção histórica, até formulações contemporâneas como as de Judith Butler, o que se observa é um território teórico atravessado por disputas, revisões e deslocamentos. Nasceu de ausências concretas — direitos negados, vozes interditadas — e, ao longo do tempo, ramificou-se em direções múltiplas, algumas convergentes, outras em desacordo declarado. Nesse território, acumulam-se tensões, revisões, impasses — matéria viva, jamais fixada. Não se encontra, porém, a unidade rígida que define o impulso totalitário.
Totalitarismo exige centralidade, comando, uniformidade. Exige a supressão da diferença em nome de uma verdade única, administrada como dogma. Como delineado por Hannah Arendt, trata-se de um projeto de dominação total, incompatível com a pluralidade efetiva. Nada disso encontra morada necessária no feminismo enquanto tradição intelectual e política. O que se revela, ao contrário, é um campo atravessado por disputas internas, onde nenhuma voz alcança impor silêncio absoluto às demais.
Quanto à acusação de misandria, convém distinguir crítica estrutural de hostilidade essencial. Questionar formas históricas de poder não equivale a instaurar aversão ontológica. A crítica, quando se dirige a estruturas, não se fixa em indivíduos; examina relações, não condena existências. Como observa Kate Manne, a imputação de “ódio” frequentemente desloca o debate das estruturas para intenções presumidas. A confusão entre esses planos revela menos sobre o objeto criticado do que sobre o olhar que o apreende.
Resta, então, uma evidência: a expressão que pretende definir acaba por obscurecer. Em vez de iluminar um fenômeno complexo, reduz, simplifica, endurece. E, nesse gesto, afasta a possibilidade de compreensão — tarefa sempre mais exigente do que o conforto dos slogans.
Nomear com rigor não constitui capricho da linguagem; é exercício de justiça. Onde há diversidade, afirmar unidade já configura erro. Onde há debate, declarar silêncio imposto já não descreve — falseia. Onde há crítica, nomear ódio frequentemente denuncia não o excesso do outro, mas a recusa da escuta.
Perfil que divulgou a matéria: @poponze
Perfil do professor: @prof.ricoy
Referências bibliográficas
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 456.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, v. 2, p. 9.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018, p. 27.
MANNE, Kate. Down Girl: The Logic of Misogyny. New York: Oxford University Press, 2018, p. 21.